segunda-feira, 13 de julho de 2009

Minha vida profissional

A entrevista a seguir era parte da pesquisa acadêmica de uma mestranda da PUC-SP. Fui um dos profissionais que concordaram em responder a suas perguntas e contribuir para seu trabalho. O que vai aqui é um misto de confissões de um ex-adolescente e algumas experiências que se acumulam. A discussão está aberta:

Questões para copidesques e revisores como parte da pesquisa de mestrado desenvolvida na PUC-SP

1. Qual é a sua formação acadêmica?

Licenciatura plena em Língua portuguesa/Língua inglesa – Centro Universitário São Camilo.

2. Como ingressou na profissão?

Mais ou menos por acaso. Estava cursando o último ano de faculdade e desempregado. Cadastrei meu currículo no site de uma agência de empregos e fui chamado para uma entrevista. A proposta inicial era para um estágio, mas a empresa optou por registrar-me como profissional desde o início.

3. O que motivou sua escolha profissional?

Como disse, não foi propriamente uma escolha. Na época, eu pensava em ser professor, embora não me agradasse muito a ideia de ser professor eventual e ter de encarar o despeito de adolescentes rebeldes (ao menos esse era o quadro que eu pintava).

4. Há quanto tempo atua? (Especificar: revisor, copidesque ou ambos)

Trabalho como revisor já há quase cinco anos. Quando comecei, não sabia como delimitar as atribuições de um copidesque e as atribuições de um revisor. Demorou um pouco até introjetar os limites da intervenção no texto. Aliás, ainda hoje tenho de lidar com suscetibilidades de um ou outro escrivinhador* mais zeloso de seus textos que se queixa: Quem mexeu no meu texto?!

(*Como presto serviços a empresas, revisando seus manuais de treinamento e parte de suas comunicações internas, os autores dos textos não são escritores, mas gerentes, diretores e outras funções burocráticas. A competência profissional destes, estou certo, independe de suas habilidades de redação!)

5. Definir características do trabalho de copidesque e/ou revisor (ambos, conforme o seu caso).

A distinção entre o trabalho do revisor e do copidesque é justamente a liberdade que se tem para modificar o texto. É perfeitamente possível apresentar um texto gramaticalmente correto, sem problemas de ortografia e, ainda assim, terrivelmente mal escrito. Seja porque a adequação do vocabulário está falha, seja porque a paragrafação está desequilibrada, seja porque há uma porção de aliterações, ecos e outros problemas fonéticos, seja porque, em alguns momentos, não há uma progressão textual, seja porque a estratégia argumentativa não foi a mais eficaz, enfim, há mil e uma razões por que um texto pode estar correto e mal escrito. Isso distingue o trabalho do revisor e do copidesque: enquanto aquele zela pela correção gramatical e ortográfica, este tem de levar em conta os elementos aqui elencados e outros mais.

6. De acordo com sua vivência, no trabalho com o texto, há uma fronteira definida entre copidesque e revisor? Ou existe um embricamento? Explique.

É natural que as tarefas se misturem um pouco. O revisor, no entanto, segundo o meu entendimento, há de ser mais comedido em suas intervenções. A supressão ou reescrita de parágrafos inteiros é um tipo de atividade previsto no trabalho de um copidesque, mas não no de um revisor.

7. Atua de forma permanente ou esporádica (como “bico”)?

Permanente. Atualmente, é a minha única fonte de renda. Trabalho como profissional assalariado de um pequeno estúdio de editoração eletrônica. Depois de alguns anos revisando manuais de treinamento, passei também a elaborar testes de múltipla escolha abordando os assuntos destes manuais. Em termos de frequência, posso dizer que faço copidesque (sobretudo de traduções, que aparecem com um português excessivamente truncado), reviso, elaboro os testes e vez por outra redijo alguma coisa.

8. Que etapas você segue no seu trabalho com o texto? (Enumere-as)

Eliminação de espaços duplos e demais espaços indevidos, por exemplo, espaço antes de sinais de pontuação, utilizando o comando Localizar e substituir do Word. Conferência e padronização dos títulos e subtítulos: se estão em caixa alta, caixa alta e baixa, caixa baixa (conforme instrução). Primeira leitura do texto e parte mais pesada da revisão. Essa primeira etapa é feita com arquivo eletrônico na tela do computador. Depois de concluída, releio todo o texto, agora em versão impressa, a fim de identificar possíveis falhas minhas ou problemas ainda não vistos quando da primeira leitura.

9. Quais são as dificuldades da profissão?

O desgaste físico! A necessidade de ficar longas horas sentado diante de um computador ocasiona um grande esgotamento das vistas e uma quase atrofia dos músculos e membros do corpo. Quando não há um cuidado, dores lombares, torcicolos, problemas de postura e coisas assim são constantes. (E digo por experiência própria!).

Poderia mencionar também a dificuldade de inserção no mercado e a baixa remuneração oferecida por algumas empresas.

10. Costuma fazer algum tipo de reciclagem (cursos, palestras, etc.)? Com que frequência?

Já fiz alguns cursos, sim, mas não posso dizer que há uma regularidade nisso. Recebo a newsletter da Universidade do Livro e costumo visitar o site da Revista Língua e da CBL, que são as instituições de São Paulo que oferecem cursos na área. Sempre que posso, faço. Todos os de que participei até hoje foram pagos pela empresa em que trabalho.

11. Que bases teóricas e/ou teorias linguísticas e/ou textuais utiliza para respaldar seu trabalho?

Na esmagadora maioria dos casos, o prescritivismo gramatical mais raso. A linguística vem em socorro para justificar algum desvio que deve ser mantido, pois a adequação à dita norma culta implicaria numa significativa mudança de significado ou quando fica nítido que o autor do texto optou por uma forma e não por outra deliberadamente.

12. Defina três regras que o copidesque e o revisor devem seguir no seu trabalho.

a) Mexer o mínimo necessário no texto: o texto não é seu e você não pode mexer no trabalho alheio de modo absolutamente arbitrário. Na máxima disse que se deve mexer o mínimo necessário (e não o mínimo possível), porque existe o risco de pecarmos tanto pelo excesso quanto pela falta.

b) Não fazer alteração que não seja capaz de justificar.

c) Nos casos em que há mais de uma opção admissível, optar por seguir a forma que o autor do texto escolheu, ainda que não nos pareça a melhor escolha.

13. Quais são as características essenciais de um copidesque e/ou revisor?

Atenção, disciplina, conhecimento, sagacidade para fazer as inferências, comedimento nas intervenções, humildade para reconhecer que nem sempre a nossa fórmula é a mais adequada, mais bonita ou mais correta. E o mais importante: o revisor/copidesque deve ser um leitor de bons textos, tanto de literatura quanto de outras áreas do conhecimento, para não se deixar contaminar pelos vícios dos textos que lê e para manter sempre viva a eufonia da língua portuguesa.

2 comentários:

Junior disse...

Mas e ai vc é um copidesque ou um revisor?

Brincadeiras a parte, sei q é um grande profissional, ainda bem q surgiu esse acaso na sua vida hein!

Um forte abraço e até mais!

Gleici disse...

Cai em seu blog através de outro e fiquei impressionada. Passarei a ser visita assídua por aqui.

Um abraço!