segunda-feira, 22 de abril de 2013

Faça um bem a si mesmo

Se você tem veleidades literárias, trabalha com textos alheios, precisa redigir relatórios, bilhetes, e-mails, post-it, enfim, se precisa usar a linguagem escrita em qualquer de suas modalidades, faça um bem a si mesmo, baixe e leia esta pequena preciosidade de Antonio Albalat: A arte de escrever em 20 lições. Depois de ler esta obra, você vai descobrir por que aquele livrinho da Dad Squarisi não merece ter o mesmo nome...

sábado, 13 de abril de 2013

As virtudes do profissional do texto



Desde que ingressei na carreira de revisor de textos, fiz alguns cursos, li diversos livros cujo assunto era o mercado editorial e acumulei alguma experiência. Ainda assim, só muito recentemente encontrei um livro que abordava um assunto esquecido, quase antiquado. Valery Larbaud, em seu Sob a Invocação de São Jerônimo,[1] fala a respeito das virtudes do tradutor (muitas das quais se aplicam igualmente a preparadores e revisores de textos). Para que fique claro a que me refiro quando falo de virtude, cito o filósofo Mortimer Adler, numa passagem em que ele expõe a noção aristotélica de virtude:

Segundo Aristóteles, a virtude moral é o hábito de fazer as escolhas certas. Fazer uma ou duas escolhas certas dentre muitas escolhas erradas não basta. Se as escolhas erradas são em número muito maior do que as escolhas certas, você persistirá na direção errada – irá para longe da felicidade, não para perto dela. É por isso que Aristóteles enfatiza a ideia de hábito.
Você sabe como os hábitos se criam. Para criar o hábito de ser pontual nos seus compromissos, você tem de tentar ser pontual repetidas vezes. Gradualmente se cria o hábito da pontualidade. Uma vez criado, você tem uma disposição firme e forte de ser pontual ao chegar onde prometeu chegar. Quanto mais forte o hábito, mais fácil agir daquele jeito, e mais difícil perdê-lo ou agir de maneira oposta.
Quando você cria um hábito e ele está bem desenvolvido, sente prazer em fazer aquilo que tem o hábito de fazer porque o faz com facilidade – quase sem esforço. Você sente que é doloroso agir de modo contrário aos seus hábitos.
Aquilo que acabo de dizer vale para os bons e para os maus hábitos. Se você criou o hábito de dormir demais, é fácil e agradável desligar o despertador e continuar dormindo. É difícil e doloroso acordar na hora. Por isso, se você criou o hábito de se permitir entregar-se a certos prazeres ou de evitar certas dores, é difícil abandoná-lo.[2]

Julgo necessário evocar essa ideia de virtude porque ela, pelo que me consta, está praticamente ausente do imaginário dos aspirantes ao trabalho com textos – tradutores, preparadores, revisores... Tem-se em mente que é necessário estudar língua, dominar certos recursos de informática, organizar-se como categoria profissional, etc. No entanto, para além de tudo isso, há uma espécie de predisposição ao ofício que antecede a toda essa formação, digamos, técnica do profissional. O conjunto de virtudes que listarei adiante é o que, parece-me, constitui essa predisposição.
Parto de minha experiência pessoal e das leituras que fiz e estou bem ciente de que há uma boa dose de subjetivismo e generalização. Seja como for, se o que tenho a dizer suscitar alguma autocrítica em profissionais experientes ou contribuir para a formação de aspirantes e iniciantes, já me darei por satisfeito.
Para o propósito que tenho em mente, não é necessário distinguir com precisão as atribuições de um preparador e de um revisor de textos. Mantenho o termo revisor simplesmente porque estas considerações foram suscitadas pela avaliação do trabalho de um revisor. O que vem a seguir, no entanto, se dirige igualmente a preparadores e revisores.


1. O revisor humilde (humildade x orgulho)

Já vi o revisor ser comparado a um goleiro – execrado quando falha, esquecido quando brilha. Não considero a metáfora válida. Para mim, o revisor de textos se aproxima mais da figura de um contrarregra – alguém cujo trabalho é garantir, com a máxima discrição possível, sem fazer-se notar, que tudo funcionará bem para que o outro brilhe.
Aliás, um contrarregra que, por alguma razão, se julgue digno dos holofotes está fugindo à sua função. Pode até ser que tenha seu talento e o exiba noutras oportunidades; mas, enquanto estiver como contrarregra, ele é contrarregra. O mesmo vale para o revisor. O pressuposto básico, fundamental, da atividade de revisão é que se revisam textos alheios. Isso implica que o revisor:

  1. Renuncia seu próprio estilo, suas preferências, seu gosto pessoal. Se as escolhas do autor/tradutor estão corretas, coerentes, aplicadas sistematicamente, adequadas ao tom do texto, não cabe ao preparador/revisor modificá-las. Neste quesito se encontram boa parte das substituições de seis por meia dúzia que tanto incomodam tradutores e editores. 
  2. Presume que o tradutor é alguém suficientemente qualificado para fazer o serviço de tradução. Se esta presunção vai se sustentar ao longo do trabalho é outra história. Em geral, é aconselhável que o profissional parta desta presunção e procure imaginar por que o tradutor fez determinadas escolhas. O revisor é um humilde zelador do texto alheio e só deve interferir quando for capaz de justificar, de modo plausível, cada uma de suas intervenções.
  3. Intervém no texto criteriosamente. Na minha segunda semana de trabalho como revisor, fiz alterações no texto de um dos diretores de uma grande empresa. Este deu um chilique, perguntando quem tinha mexido no texto dele. Muito cautelosamente, mas com firmeza, tive de explicar a razão de cada uma das intervenções que fiz. Certamente, quem mais saiu ganhando dessa experiência fui eu. Daí saí com o preceito: Não intervir arbitrariamente, mas criteriosamente.
A humildade faz o revisor/preparador reconhecer que o texto não é seu.


2. O revisor diligente (diligência x negligência)

Se há um vício mortal ao revisor de textos, este é a negligência, a displicência, a suposição de que ninguém vai conferir a qualidade do trabalho. Ainda que demore, em algum momento os problemas virão à tona, e o profissional ficará marcado. Por exemplo: todos os profissionais que trabalham para editoras recebem um manual de padronização e estilo. O manual não pretende ser exaustivo nem uma camisa de força; mas contém critérios convencionais que DEVEM ser aplicados. Se o manual diz que o número da remissão à nota de rodapé deve ficar depois do sinal de pontuação, não há nada que justifique que este apareça antes! Se o manual prescreve que depois do título de um livro citado em referência vem ponto final, não há razão para que conste vírgula. E assim por diante. Muito curiosamente, a revisão de prova acaba tendo de corrigir problemas de padronização porque o preparador deixou a desejar! Isso tem nome: negligência! São exemplos de negligência também erros de ortografia gritantes (que até o revisor do Word pode pegar), dúvidas que podem ser resolvidas com uma simples consulta ao Google, etc.
O revisor diligente confere tudo, consulta tudo, tira dúvidas, relê...

A diligência faz o revisor/preparador seguir com atenção as instruções recebidas e não se furtar à pesquisa para esclarecer suas dúvidas.


3. O revisor prudente (prudência x temeridade)

A partir daqui, as virtudes passam a aproximar-se umas das outras. Já dissemos que o revisor humilde tenta inferir os critérios do autor/tradutor e que o revisor diligente pesquisa, consulta, tira dúvidas. Pois bem, diremos agora que o revisor prudente não intervém quando têm dúvida, não repadroniza injustificadamente, não mexe no texto à revelia daquele que assina o texto ou de seu editor. Se, num romance, o tradutor optou por manter as marcações de diálogo com aspas, mantenham-se; se optou por usar travessões, conservem-se (salvo, claro, orientação contrária). Se, num texto ensaístico, o tradutor optou por usar as segundas pessoas, que assim seja; se ocorrem termos pouco usuais, um vocabulário rebuscado,  por que vulgarizá-los? Vejam: escolher um vocabulário rebuscado ou simplório envolve uma decisão editorial que foge ao escopo do preparador/revisor. 

A prudência faz o preparador/revisor pesquisar, perguntar, esclarecer e somente então interferir.


4. O revisor seguro (segurança x insegurança)

Nada do que foi dito até aqui tem como objetivo tolher a liberdade do preparador/revisor. O que se espera é que os profissionais sejam seguros do que fazem. Repetidas vezes, preparadores deixam comentários e revisores de prova fazem marcações a lápis com perguntas que poderiam facilmente ser resolvidas (com um pouquinho mais de diligência). Estar seguro de si e de seu trabalho significa apenas que se fez o trabalho com diligência e que se é capaz de justificar as decisões tomadas.

A segurança faz o preparador/revisor julgar criticamente suas justificativas e apresentá-las de modo plausível, caso lhe sejam exigidas.


5. O revisor responsável (responsabilidade x irresponsabilidade)

Espera-se que profissionais responsáveis assumam as consequências de seus atos, para o bem e para o mal. Caso algum padrão não tenha sido aplicado, o colaborador deve estar disposto a refazer imediatamente o que fez de modo incompleto ou equivocado; caso se comprometa a entregar o trabalho em determinado prazo, espera-se que o cumpra ou, ao menos, avise à editora com alguma antecedência que não conseguirá cumpri-lo. Sumir é atitude irresponsável. Não responder e-mails é atitude irresponsável. Não atender o telefone é atitude irresponsável.
Não cabe aqui tratar deste assunto, mas abordo-o apenas de passagem: em geral, o profissional já sabe quanto vai receber por determinado trabalho no momento em que o aceita. Alegar que fez o trabalho proporcionalmente ao valor recebido não é apenas irresponsabilidade: é ser desonesto! Se aceitou fazer o trabalho, que o faça com profissionalismo e responsabilidade!

A responsabilidade faz o preparador/revisor cumprir os prazos e as exigências daquele que contratou os seus serviços.


6. O revisor solícito (solicitude x hostilidade)

É imprescindível que um freelancer saiba que é um prestador de serviços, e a editora é um CLIENTE! E, como cliente, tem o direito de exigir que o trabalho seja feito de acordo com o que foi combinado e, caso seja necessário um retrabalho, o profissional, se é profissional de fato, há de fazê-lo de bom grado, visando a satisfazer seu cliente e a garantir que este continue a contar com seus trabalhos.

A solicitude faz o preparador/revisor receber de bom grado um feedback relativo ao seu trabalho mesmo quando este é negativo.

***

Perceberam como nada do que foi mencionado aqui diz respeito à competência técnica do profissional? Concordam que as características mencionadas aqui independem de sua formação acadêmica? Ficou claro que há uma espécie de atitude de espírito a ser adquirida perante o trabalho com textos? Espero que sim. Espero também que humildade, diligência, prudência, segurança, responsabilidade e solicitude façam de nós profissionais melhores. A começar em mim.



[1] Valery Larbaud, Sob a Invocação de São Jerônimo: Ensaios sobre a Arte e Técnicas de Tradução. Trad. Joana Angélica d’Avila Melo. São Paulo, Editora Mandarim, 2001.
[2] Mortimer J. Adler, Aristóteles para Todos. Trad. Pedro Sette-Câmara. São Paulo, Editora É, 2010, p. 108-09. (Coleção Educação Clássica)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Sobre o ofício do tradutor



Traduzir não é fácil. Quem diz isso não sou eu, mas um dos mais experientes tradutores brasileiros: Paulo Henriques de Britto (tradutor de Dickens, Ian McEwan, Henry James, Philip Roth, Swift, Faulkner, etc.). Portanto, a fim de desfazer a ideia equivocada de que basta saber uma segunda língua e ter algum tempo livre para se tornar um tradutor, recomendo, inicialmente, a leitura de três livros relativos ao ofício:

  1. Paulo Henriques Britto, A Tradução Literária. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012. (obra da qual tirei a citação que abre este texto)
  2. Paulo Rónai, Escola de Tradutores. Rio de Janeiro, José Olympio, 2012. (edições anteriores da Nova Fronteira)
  3. Paulo Rónai, A Tradução Vivida. Rio de Janeiro, José Olympio, 2012. (edições anteriores da Nova Fronteira)
Esses três livros são de caráter introdutório e têm como principal virtude o fato de terem sido escritos por tradutores de verdade, não meros teóricos. Praticamente tudo o que dizem está enraizado em sua experiência e em sua erudição. Os livros do Rónai impressionam pela leveza, pela fluidez da linguagem, pela clareza da exposição, sobretudo quando se leva em conta o fato de o autor ser um húngaro que aprendeu português já depois de adulto. São verdadeiros clássicos dos estudos de tradução em língua portuguesa, pioneiros neste campo de estudos no Brasil. O livro do Paulo Henriques de Britto acabou de ser lançado, o que significa já ser uma obra da maturidade, em que se somam suas experiências de escritor, poeta, tradutor e professor de teoria da tradução. Esses livros já são suficientes para desfazer a ideia de que basta conhecer outra língua para se pôr a traduzir.

Além destes, para que cada etapa do processo tradutório seja feito de modo consciente, é igualmente recomendável a leitura de:
4. Brenno Silveira, A Arte de Traduzir. São Paulo, Unesp/Melhoramentos, 2004.
Este livro pode ser considerado um verdadeiro manual preventivo de problemas. Phrasal verbs, falsos cognatos, expressões idiomáticas, tudo isso é abordado de modo a chamar a atenção para o que requer atenção!

Se, por acaso, você tomar gosto pela discussão mais teórica, vale a pena ler:
5. Umberto Eco, Quase a Mesma Coisa. Rio de Janeiro/São Paulo, Record, 2007.
Umberto Eco é semioticista (que não deixa de ser uma espécie de linguista), tradutor e autor traduzido. E todas essas perspectivas se mostram nessa obra.

*** 

Para além de conhecer a língua estrangeira, é imprescindível um domínio da língua portuguesa. E domínio implica não só a capacidade de utilizar a língua com eficiência, mas também a capacidade de analisar suas estruturas fonéticas, morfológicas, sintáticas e semânticas; compreender seus mecanismos de funcionamento, seu potencial expressivo, etc. Isso, (in)felizmente, requer trabalho e requer estudo. Cito outros três livros, muito úteis para compreender a que me refiro:
6. Othon Moacyr Garcia, Comunicação em Prosa Moderna. São Paulo, FGV, 2010. (várias edições anteriores)

7. Gladstone Chaves de Melo, Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Livraria Editora Padrão, 1976. (Esgotado, encontrável apenas em sebos. Mesmo se for caro, vale o quanto custa!)

8. Adriano da Gama Kury, Novas Lições de Análise Sintática. São Paulo, Ática, 2003.
Os três são livros de estudo que requerem certa perseverança e prática. O do Kury e o do Othon Garcia têm exercícios de fixação. Não desdenhem do livro de análise sintática; para quem almeja ser tradutor saber sintaxe é ter em mãos uma ferramenta de trabalho.

Quanto às obras de referência, dou toda ênfase a:
9. Agenor Soares dos Santos, Guia Prático da Tradução Inglesa. São Paulo, Elsevier, 2007.
Apesar do título, trata-se de um dicionário dedicado a falsos cognatos e outras armadilhas da língua inglesa. Ao final, dou uma lista de obras complementares que podem ser igualmente úteis.

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Antonio Fernando Borges escreveu um livro chamado Não Perca a Prosa, que contém lições preciosas. Entre outras, num de seus exercícios ele nos manda escolher determinados autores e imitá-los. Ele sugere, por exemplo, que se leia uma série de crônicas de Nélson Rodrigues e depois se escreva uma crônica imitando o Nélson. Ler e imitar, ler e imitar. Vários autores. Ao final, este exercício acabará por nos tornar leitores mais atentos, de modo a perceber certas constâncias de estilo nos autores que lemos. Menciono tudo isso porque:

Para praticar, podemos imitar o estilo de um autor que escreve na nossa própria língua como exercício escolar;

Ao traduzir, devemos imitar o estilo de um autor que escreve numa língua diferente da nossa como dever de ofício.

É claro, nessa fase da imitação, é bom que se escolham livros de diferentes gêneros e, principalmente, que se leiam livros de autores brasileiros e obras traduzidas. Um exercício curiosíssimo, por exemplo, é ler Alice no País das Maravilhas, no original e nas diferentes edições brasileiras (Cosac, Zahar), para ver como certos problemas foram resolvidos. Minha maior recomendação é que, durante algum tempo, haja dedicação aos aspectos formais do texto (escolha lexical, construções sintáticas...), até que se saiba bem, por exemplo, quando cabe uma subordinada concessiva e quando cabe uma adversativa (o Othon exemplifica bem a diferença). Ao lidar com textos, descobrimos a utilidade daquelas aulas de análise sintática que às vezes nos entediavam. Identificar a oração principal e as subordinadas passa a ser tão importante quanto apreender o conteúdo do que está sendo dito. Mais do que isso: em muitos casos, é condição para apreender o que está sendo dito. E, com isso, chego ao último ponto que julgo recomendável: estude latim. Uma vez que, em latim, as funções sintáticas são marcadas morfologicamente e a ordem das palavras é mais ou menos livre, é imprescindível que se faça análise sintática de cada sentença, sem o que simplesmente não se pode compreender o que está sendo dito. Ora, este é o treinamento perfeito para a aquisição do hábito de analisar sintaticamente os textos no mesmo ato em que se lê. Fácil não é; mas é possível.

Bibliografia sugerida

Obras de estudo

Antonio Albalat, A Arte de Escrever em 20 lições. (Só se encontra em sebos!)
Idem, A Formação do Estilo pela Assimilação dos Autores. (Idem – são livros velhos e preciosos. Affonso Romano de Santana disse que foram estes livros do Albalat que fizeram dele um escritor!)
Francine Prose, Para Ler como um Escritor. Trad. Maria Luiza Borges. Rio de Janeiro, Zahar, 2008.
Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa. São Paulo, Martins Editora, 1998.

Obras de referência

Domingos Paschoal Cegalla, Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Lexikon, 2009.
Antonio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Lexikon, 2010.
Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, Dicionário Analógico da Língua Portuguesa – Ideias Afins. Rio de Janeiro, Lexikon, 2010.
Fancisco Fernandes, Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa. Edição revista e ampliada por Celso Pedro Luft. São Paulo, Globo, 2002.
Antonio Carlos do Amaral Azevedo, Dicionário de Nomes, Termos e Conceitos Históricos. Rio de Janeiro, Lexikon, 2012.
Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Nominal. São Paulo, Ática, 2009.
Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal. São Paulo, Ática, 2009.
Denis Huisman, Dicionário dos Filósofos. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia. São Paulo, WWF Martins Fontes, 2012.
J. Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia, 4 vols. São Paulo, Edições Loyola, 2001.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Introdução ao De Incarnatione, de Santo Atanásio


[ou Sobre Livros Antigos]


Por C. S. Lewis

Há uma ideia estranha por aí, segundo a qual os livros antigos devem ser lidos apenas por profissionais e o leitor amador deve contentar-se com os livros modernos. Assim, como professor de Literatura Inglesa, tenho constatado que a última coisa que o estudante médio pensa em fazer é pegar uma tradução de Platão na estante da biblioteca e ler O Banquete. Ao contrário, tende a ler algum livro moderno dez vezes mais enfadonho, apresentando-lhe tudo sobre os “ismos” e influências de Platão e apenas uma vez a cada vinte páginas contando-lhe o que Platão de fato disse. Trata-se de um erro compreensível, pois surge da humildade. O estudante está meio temeroso de encontrar-se frente a frente com um grande filósofo. Sente-se incapaz e acha que não o compreenderá. Mas se tão-somente soubesse que o grande homem, justamente por sua grandeza, é muito mais inteligível que seu comentador moderno... O estudante mais simples seria capaz de compreender, se não tudo, ao menos a maior parte do que Platão disse. Mas dificilmente se é capaz de compreender alguns dos livros modernos sobre platonismo. Sempre foi um dos meus principais esforços como professor convencer o jovem não só de que o conhecimento de primeira mão vale mais a pena que o de segunda, mas que é geralmente muito mais fácil e mais prazeroso de adquirir.

Essa preferência equivocada pelos livros modernos, e essa timidez diante dos antigos, em nenhuma área é mais gritante que na teologia. Sempre que se encontra um pequeno grupo de estudos de cristãos leigos, pode-se ter quase certeza de que não estão estudando São Lucas, São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Hooker ou Butler, mas Berdyaev, Maritain, Niebuhr, Dorothy Sayers ou até a mim mesmo.

Ora, parece haver uma contradição. Naturalmente, uma vez que sou escritor, não desejo que o leitor comum deixe de ler os livros modernos. Mas, se tem de ler apenas os novos ou apenas os velhos, eu recomendaria que lesse os velhos. E lhes daria este conselho exatamente porque se trata de um amador e, portanto, está muito menos protegido que o especialista contra os perigos de uma dieta exclusivamente contemporânea. Um livro novo ainda está à prova, e o amador não está em condições de julgá-lo. A obra terá de ser posta à prova frente ao grande corpo do pensamento cristão ao longo das eras, e todas as suas implicações ocultas (muitas vezes insuspeitadas pelo autor) têm de ser trazidas à luz. Geralmente não pode ser plenamente compreendida sem o conhecimento de um bom número de outros livros modernos. Se chegar às 11h a uma conversa que começou às 8h, você não verá o peso real do que é dito. Dados que lhe parecerão bastante comuns despertarão risos ou irritação e você não saberá por que – a razão, claro, é que os estágios anteriores da conversa lhes deram um significado especial. Do mesmo modo, sentenças num livro moderno que parecem ordinárias podem dirigir-se a algum outro livro; dessa forma, pode-se ser levado a aceitar o que teria sido rejeitado com indignação se se soubesse seu real significado. A única segurança é ter um padrão de cristianismo simples, central (o mero cristianismo, como Baxter o chamou), que coloque as controvérsias do momento na perspectiva apropriada. Esse padrão só pode ser adquirido nos livros antigos. É uma boa regra, depois de ler um livro novo, nunca se permitir um outro livro novo até que tenha lido um velho entre eles. Se isso parece exagerado para você, deveria ler pelo menos um livro velho a cada três novos.


Todas as eras têm sua própria perspectiva. São especialmente boas para enxergar certas verdades e especialmente suscetíveis a cometer certos equívocos. Todos nós, portanto, precisamos dos livros que corrigirão os erros característicos de nossa própria época. E isso quer dizer os livros antigos. Todos os escritores contemporâneos compartilham, em alguma medida, a perspectiva contemporânea – mesmo aqueles, como eu mesmo, que parecem opor-se a elas. Nada me choca mais, quando leio as controvérsias de eras passadas, do que o fato de que ambos os lados geralmente pressupõem, sem questionar, uma porção de coisas que hoje negaríamos por completo. Eles pensavam estar de lados completamente opostos, mas na verdade estavam o tempo todo secretamente unidos – unidos um ao outro e contra as eras anteriores e posteriores – por um grande volume de pressupostos. Podemos ter certeza de que a cegueira característica do século XX – a cegueira da qual a posteridade nos perguntará “Mas como eles podiam ter pensado isso?” – se encontra onde nunca desconfiamos, e diz respeito a algo em que há claro acordo entre Hitler e o presidente Roosevelt ou entre o Sr. H. G. Wells e Karl Barth. Nenhum de nós pode escapar completamente desta cegueira, mas podemos aumentá-la ou baixar nossa guarda diante dela se lermos apenas livros modernos.

Naquilo em que estão certos, tais livros nos dão verdades que já sabíamos parcialmente. No que estão errados, eles agravam perigosamente o erro de que já padecemos. O único paliativo é manter soprando em nossas mentes a limpa brisa dos séculos, e isso só pode ser feito pela leitura dos livros velhos. Claro, não há nada de mágico no passado. As pessoas não eram mais espertas do que são hoje; elas cometiam tantos equívocos quanto nós. Mas não os mesmos equívocos. Elas não se gloriam nos erros que estamos cometendo; e seus próprios erros, sendo agora visíveis e palpáveis, não nos ameaçarão. Duas cabeças são melhores do que uma; não porque uma delas é infalível, mas porque é improvável que ambas errem na mesma direção. Aliás, os livros do futuro seriam tão bons corretivos quanto os livros do passado, mas infelizmente não podemos ter acesso a eles.

No meu caso, fui conduzido à leitura dos clássicos cristãos quase que por acidente, em consequência de meus estudos de língua inglesa. Alguns, como Hooker, Herbert, Traherne, Taylor e Bunyan, eu li porque são grandes escritores de língua inglesa; outros, como Boécio, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e Dante, porque eram “influências”. George Macdonald eu encontrei por conta própria, aos 16 anos, e nunca oscilei em meu devotamento, embora tenha tentado por bastante tempo ignorar seu cristianismo. São, você perceberá, um saco de gatos, representantes de muitas igrejas, ambientes e épocas. E isso me dá outra razão para lê-los. As divisões da cristandade são inegáveis e são expressas por alguns desses autores da maneira mais virulenta. Mas se um homem é tentado a pensar – como pode ter sido tentado alguém que lê apenas os contemporâneos – que o “cristianismo” é uma palavra de tantos significados que acaba por não significar nada, pode-se aprender, para além de toda dúvida, ao afastar-se de seu próprio século, que este não é o caso. Avaliado em contraste com as eras passadas, o “cristianismo puro e simples” não se torna nenhuma insípida transparência interdenominacional, mas algo positivo, autoconsistente e inesgotável. E sei disso por experiência própria. No tempo em que ainda repudiava o cristianismo, aprendi a reconhecer, como a algum aroma familiar, que me deparava com algo praticamente invariável ora no puritano Bunyan, ora no anglicano Hooker, ora no tomista Dante. Estava lá em Francisco de Sales; estava lá (grave e rústico) em Spenser e Walton; estava lá (austero mas corajoso) em Pascal e Johnson; estava lá, mais uma vez, com um sabor suave, assustador e paradisíaco em Vaughan, Boehme e Traherne. Na sobriedade urbana do século XVIII não se estava a salvo – [William] Law e Butler eram dois leões à solta. O suposto “paganismo” dos elisabetanos não o excluiu; estava à espreita onde um homem pudesse imaginar-se seguro, bem no centro do The Faerie Queene e na Arcadia. Era, é claro, variado; mas, ainda assim, apesar de tudo, tão inconfundivelmente o mesmo; reconhecível, não para ser evitado, o odor que para nós é de morte até que permitamos que se torne vida:
an air that kills
From yon far country blows.

[Um ar que mata
sopra daquela terra distante]
Todos nos afligimos, e também nos envergonhamos, das divisões da cristandade. Mas aqueles que sempre viveram no aprisco cristão podem ser muito facilmente desanimados por elas. Elas são ruins, mas essas pessoas não sabem como elas são desde fora. Vistas exteriormente, o que fica intacto, a despeito de todas as divisões, ainda se mostra (como realmente é) uma unidade incrivelmente formidável. Eu sei porque vi; e, bem, nossos inimigos sabem disso. Qualquer um de nós pode encontrar essa unidade afastando-se de sua própria época. Não é suficiente, mas é mais do que se tinha pensado até então. Uma vez que se está imerso nela, se você se arriscar falar, terá uma experiência divertida. Pensarão que você é um papista quando na verdade está reproduzindo as palavras de Bunyan; um panteísta, quando cita Tomás de Aquino; e assim por diante. Pois agora você chegou ao viaduto elevado que cruza as eras e que parece tão alto dos vales, tão baixo das montanhas, tão estreitos em comparação com os pântanos e tão largos em comparação com as trilhas de ovelhas.

O presente livro é meio experimental. A tradução pretende dirigir-se ao mundo em geral, não apenas aos estudantes de teologia. Se for bem sucedida, outras traduções de outros grandes livros cristãos presumivelmente se seguirão. Em certo sentido, é claro, não é a primeira neste campo. Traduções da Theologia Germanica, Imitação, A Escala da Perfeição e as Revelações de Júlia de Norwich já estão no mercado, e são preciosas, embora em parte não muito eruditas. Mas perceber-se-á que esses são livros de devoção e não de doutrina. Agora, o leigo ou amador precisa ser instruído tanto quanto precisa ser exortado. Em nossa época, sua necessidade de conhecimento é particularmente urgente. Tampouco eu admitiria qualquer divisão rígida entre os dois tipos de livro. De minha parte, tendo a achar os livros de doutrina muito mais úteis na devoção do que os livros devocionais e, aliás, suspeito que muitos outros tenham a mesma experiência. Acredito que muitos que acham que “nada acontece” quando se sentam ou se ajoelham com um livro devocional, achariam que o coração canta espontaneamente enquanto estão trilhando o caminho árduo da teologia com um cachimbo na boca e um lápis na mão.

Trata-se de uma excelente tradução de um grande livro. Santo Atanásio carecia de estima popular por causa de certa sentença do “Credo Atanasiano”. Não vou insistir no fato de que aquela obra não é exatamente um credo e não o era para Atanásio, pois acho que é um belo escrito. As palavras “Quem quer que não a conservar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá eternamente” são a ofensa. Geralmente são mal compreendidas. A palavra operante aqui é “conservar”; não adquirir, nem mesmo crer, mas conservar. O autor, na verdade, não está falando de descrentes, mas de desertores; não daqueles que nunca ouviram de Cristo, nem mesmo daqueles que não o compreenderam e recusaram-se a aceitá-lo, mas daqueles que, tendo-o compreendido e crido nele, mais tarde se permitem, por influência da preguiça ou da moda ou de qualquer outra coisa, convidar a confusão a se desenvolver num dos modos de pensamento subcristão. São uma advertência contra a curiosa presunção moderna de que todas as mudanças de crença, embora provocadas, são necessariamente isentas de culpa. Mas esta não é minha preocupação imediata. Mencionei o “credo de Santo Atanásio”, como geralmente é chamado, apenas para afastar do caminho do leitor um fantasma e situar o verdadeiro Atanásio em seu lugar. Seu epitáfio é “Athanasius contra mundum”. Atanásio contra o mundo. Orgulhamo-nos de que nosso país ergueu-se mais de uma vez contra o mundo. Atanásio fez o mesmo. Ergueu-se pela doutrina trinitária, “íntegra e inviolada”, quando parecia que todo o mundo civilizado estava regredindo do Cristianismo para a religião de Ário – para uma daquelas religiões sintéticas “sensíveis” que são tão intensamente recomendadas hoje e que, tanto naquela época quanto hoje, incluía entre seus devotos muitos clérigos bastante cultos. A sua glória é não ter mudado com o tempo; e sua recompensa é que hoje ainda permanece quando aquele tempo, como todos os tempos, já passou.


Quando abri pela primeira vez seu De incarnatione, logo descobri com uma simples amostra que estava lendo uma obra-prima. Sabia bem pouco grego cristão, com exceção daquele do Novo Testamento, e eu tinha dificuldades previsíveis. Para minha surpresa, constatei que era quase tão fácil quanto Xenofonte; e somente a mente de um mestre poderia, no século IV, ter escrito tão profundamente sobre tal assunto com simplicidade clássica. A cada página que lia, essa impressão se confirmava. Sua abordagem dos milagres é muito necessária hoje, pois é a resposta final àqueles que objetam-lhes que são “arbitrárias e despropositadas violações das leis da natureza”. Aqui eles são mostrados como o recontar, com maiúsculas, da mesma mensagem que a Natureza escreve com sua obscura letra cursiva; as mesmas ações que se esperariam Daquele que era tão cheio de vida que, quando desejou morrer, teve de “tomar emprestada a morte de outros”. O livro inteiro, de fato, é um retrato da Árvore da Vida – um livro dourado e vigoroso, cheio de esperança e segurança; não podemos, admito, nos apropriar totalmente desta confiança hoje. Não podemos apontar para a elevada virtude da vida cristã e a alegre, quase zombeteira, coragem do martírio cristão, como uma prova de nossas doutrinas com exatamente a mesma segurança que Atanásio as tomava como consequência natural. Mas quem quer que seja o culpado por isso, este não é Atanásio.

O tradutor conhece o grego cristão muito mais que eu, de maneira que seria inadequado a mim elogiar a sua versão. Mas parece estar na tradição correta da tradução inglesa. Não acho que o leitor encontrará aqui nada daquele aspecto empoeirado que é tão comum nas versões modernas de línguas antigas. Que está vertido em língua inglesa o leitor há de notar; aqueles que compararem a versão com o original serão capazes de estimar quanto apuro e talento está pressuposto em cada escolha, por exemplo, como “estes pedantes” logo na primeira página.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A vida entre escombros



Todos conhecem o tipo de vida de uma pessoa que quer fazer o que bem entende: sexo barato e frequente, mas sem nenhum amor; vida emocional e mental detonada; busca frenética por felicidade, sem satisfação; deuses que não passam de peças decorativas; religião de espetáculo; solidão paranoica; competição selvagem; consumismo insaciável; temperamento descontrolado; incapacidade de amar e de ser amado; lares divididos; coração egoísta e insatisfação constante; costume de desprezar o próximo, vendo todos como rivais; vícios incontroláveis; tristes paródias de vida em comunidade. E, se eu fosse continuar, a lista seria enorme. Essa não é a primeira vez que venho advertir vocês: se usarem a liberdade desse modo, não herdarão o Reino de Deus. (Gálatas 5:19-21 – A MENSAGEM) 
Hamlet, na versão que caiu no gosto popular, diz que “existem mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”. As almas que se quebram no chão (Editora É), de Karleno Bocarro, nos revela algumas delas, chegando a apresentar-nos, inclusive, algumas das que estão debaixo da terra. Debaixo, aqui, tem pelo menos três sentidos diferentes.
1) Geográfico: Uma boa parte da trama se passa num bar no subsolo de um prédio abandonado, numa área de Berlim devastada pela guerra. Os escombros de um bairro inteiro são o cenário em que circulam as pessoas cuja vida se encontra no mesmo estado da paisagem em torno.
2) Existencial: São essas vidas em escombros que constituem aquilo que costumamos chamar de submundo, um mundo que hoje, em linguagem descolada, chamamos de underground. Um ambiente em que há abundância de drogas, sexo, euforia e vazio.
3) Metafísico: Há também a presença do próprio Mal, que, embora aterrorizante quando se mostra ao incorporar numa alma atormentada, não se ausenta de nenhuma das páginas do livro.
Dito desse modo, pode parecer tratar-se de um livro moralista, que pretende fazer censuras a comportamentos, etc., coisa que não é nem de longe. O narrador tem tanta história para contar que não pode deixar-se perder em psicologismos nem em longas exposições teóricas. Tudo o que há para ser dito o é a partir das desventuras de um grupo de amigos brasileiros numa Alemanha recém unificada, mas à qual pouco se adaptaram. Há um efeito moralizador, sim, porque nos mostra para onde segue uma vida sem sentido. Trata-se da experiência de uma descida aos infernos com uma lanterna em punho.
Todo o vigor da trama se deve a personagens marcantes como Marco Dilthey, um brasileiro pouco dotado de talento que vai estudar em Berlim enviado pelo Partido Comunista; Barad, o mais pretensioso dos brasileiros, um sujeito que se apega a sua aspiração artística como tábua de salvação; e Bocas, um camarada que de tão perverso nos faz duvidar da presença de algum resquício de imagem divina no homem.
Chamar Marco de pouco dotado de talento é um eufemismo. Marco é um sujeito que quase. É incapaz de qualquer realização. Quase conquista mulheres, quase se dá bem na vida, quase, quase, quase... É um fraco: incapaz de assumir suas responsabilidades, inapto para as irresponsabilidades. Não deixa de ser um retrato daqueles que insistem em acreditar numa “lavação da égua”, mesmo que não se disponham a tomar o balde, o sabão e a escova.
É sempre um risco ser ousado na pretensão e modesto nos resultados. E não basta disciplina para que as coisas aconteçam. É o que nos mostra Barad. Mesmo com toda a sua obsessão pelos estudos e sua disposição para os maiores sacrifícios em nome de sua vocação, a “sorte moral” (Bernard Willians) não o acompanha.
Se a disciplina de Barad não lhe serve de garantia de nada, o completo desregramento de Bocas parece ser uma boa escolha. Mas só parece. Mário Bocas, uma das personagens mais inconsequentes e perversas de que tenho notícia, supostamente uma encarnação da liberdade libertina, é um sujeito escravizado, seja por seus vícios, seja por seus fornecedores de “vitaminas mentais”.
O único personagem que ainda exerce alguma liberdade é Gruba, o fiel escudeiro do maligno Bocas. Quando se põe a falar, surpreende por sua lucidez embriagada. Sabe bem a posição que ocupa e, por pior que possa parecer, vive a vida que escolheu.
Luisa, a namorada de Marco que ficara no Brasil, parece uma incógnita. Tudo indica que ela também entraria no ciclo e seria mais uma a deixar-se levar pela vida. Isso não acontece, para surpresa e frustração de Marco. Sua presença ali, discreta, às vezes parecendo dispensável, é na verdade um resquício de uma vida legítima. A Luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam. Luisa parece ter entendido que quem vive ao estilo “deixa a vida me levar” acaba não chegando a lugar algum. Como Marco...
Apesar do contexto em que os episódios ocorrem – a queda do muro de Berlim e a Alemanha recém-unificada –, uma das maiores virtudes do texto é evitar academicismos, psicologismos e sociologismos. O autor não defende uma tese pela boca de seus personagens. Antes, nos conta uma história. E que história!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Apresentando George MacDonald


Por G. K. Chesterton

Introdução de Chesterton ao livro de Greville M. MacDonald, George Macdonald and His Wife, 1924.
Disponível em inglês George Macdonald


Certas revistas têm simpósios (eu os chamaria simposia, se me fosse permitido chamar duas coleções do South Kensington de “musea”) em que se pergunta às pessoas o nome de “livros que as influenciaram”, na mesma linha de “Hinos que as ajudaram”. Não é um processo realista, como regra, pois nossas mentes são, na maioria das vezes, uma biblioteca não catalogada; e, para um homem ser fotografado com um dos livros em suas mãos, geralmente, na melhor das hipóteses, este foi escolhido aleatoriamente, e, na pior, ele está fazendo pose para impressionar. Mas, em certo sentido especial, posso realmente testemunhar que um livro fez diferença em toda a minha existência, que me ajudou a ver as coisas duma certa maneira desde o princípio; uma visão das coisas que mesmo uma real revolução, como uma conversão de confissão religiosa, substancialmente apenas coroou e confirmou. De todas as histórias que li, incluindo até os demais romances do mesmo autor, esta continua sendo a mais real, a mais realista, no exato sentido do termo – mais parecida com a vida. Ela se chama “A princesa e o Goblin”, e seu autor é George MacDonald, o homem de que trata este livro.
Quando digo que é semelhante à vida, o que quero dizer é o seguinte: ele descreve uma princesinha que mora num castelo nas montanhas que é perpetuamente escavado, por assim dizer, por demônios subterrâneos que às vezes vêm à superfície através da adega. Ela sobe as escadas do castelo até o quarto da governanta ou aos outros quartos; agora, no entanto, e mais uma vez, as escadas não levam para o destino usual, mas a um novo quarto que ela nunca tinha visto antes e que em geral não pode encontrar de novo. Aqui uma boa Tetravó, que é um tipo de fada madrinha, está perpetuamente fiando e falando palavras de sabedoria e incentivo. Quando eu li como criança, senti que a coisa toda era um acontecimento dentro de uma casa humana real, não essencialmente diferente da casa em que eu mesmo vivia e que também tinha escadas, e quartos e adega. Era aí que o conto de fadas diferia de muitos outros contos; acima de tudo, era aí que a filosofia diferia de muitas outras filosofias. Sempre senti certa insuficiência no ideal de Progresso, mesmo da melhor espécie, que é o progresso do Peregrino. Dificilmente este sugere quão próximo a nós estão as melhores e as piores coisas desde o princípio; especialmente talvez mesmo no princípio. E embora, como toda pessoa sensata, eu valorize e respeite o conto de fadas ordinário do terceiro filho do moleiro que partiu para procurar sua sorte (uma forma que o próprio MacDonald seguiu na continuação chamada “A princesa e Curdie”), a sugestão de viajar para um mundo das fadas, distante, que é a alma dele, impede de atingir este fim particular que é tornar todas as escadas, portas e janelas ordinárias coisas mágicas.
Dr. Greville MacDonald, nestas memórias interessantíssimas de seu pai, penso, menciona em algum lugar o sentido deste estranho simbolismo das escadas. Outra imagem recorrente em seus romances é a de um grande cavalo branco; o pai da princesa tinha um, e havia outro em The Back of the North Wind [Por trás do vento norte]. Até este dia, não posso ver um grande cavalo branco na rua sem uma repentina sensação de coisas indescritíveis. Mas, por ora, estou falando do que pode enfaticamente ser chamado a presença de deuses domésticos – e goblins domésticos. E a imagem da vida nesta parábola não é somente mais verdadeira que a imagem de uma viagem, como a do Peregrino; é sempre mais verdadeira do que a mera imagem de um sítio como o da Guerra Santa. Há algo não somente imaginativo, mas intimamente verdadeiro a respeito da ideia de goblins que estão debaixo da casa e são capazes de importuná-la a partir da adega. Quando as coisas más que nos importunam de fato aparecem, elas não aparecem do lado de fora, mas de dentro. De alguma maneira, aquela simples imagem de uma casa que é o nosso lar, que é sinceramente amada como nosso lar, mas da qual dificilmente conhecemos o melhor ou o pior, e deve sempre esperar por um deles e observá-lo contra o outro, sempre permaneceu em minha cabeça como algo singularmente sólido e irrefutável; e era ainda mais corroborado do que corrigido quando vim a dar um nome definitivo para a senhora que zela por nós desde a torre, e talvez a assumir uma visão mais prática dos goblins debaixo do piso. Desde que li pela primeira vez aquela história, cinco filosofias alternativas do universo chegaram às nossas faculdades, vindas da Alemanha, soprando o mundo como o vento leste. Mas, para mim, aquele castelo ainda permanece nas montanhas e a luz em sua torre não se extingue.
Todas as demais histórias de George MacDonald, interessantes e sugestivas de diversas maneiras, parecem ser ilustrações e mesmo disfarces daquele único disfarce, pois esta é a mais importante diferença entre o seu tipo de mistério e a mera alegoria. A alegoria comum assume seu objeto como lugares-comuns ou convenções necessárias para homens e mulheres comuns, e tenta torná-los agradáveis ou pitorescos, vestindo-os como princesas, ou goblins ou fadas. Mas George MacDonald, na verdade, acreditava que as pessoas eram princesas e goblins e fadas, e os vestia como homens ou mulheres comuns. O conto de fadas está dentro da história comum, não fora. Um resultado disso é que todos os objetos inanimados que são as propriedades do cenário da história retêm aquele glamour ignorado que têm num conto de fadas literal. A escadaria em “Robert Falconer” é tão mágica como a escadaria em “A princesa e o Goblin”; e quando os meninos estão construindo o barco e a menina está recitando versos para eles, em “Alec Forbes”, e alguns velhos cavalheiros dizem galhofeiramente que se erguerá para cantar como um navio mágico escandinavo, sempre me parece como se ele estivesse descrevendo a realidade, sem levar em conta a aparência, do incidente. Os romances enquanto romances são irregulares; mas como contos-de-fadas são extraordinariamente coerentes. Ele nunca, nem por um momento, perde seu fio interior que corre através da colcha de retalhos, e é o fio que a Tetravó põe nas mãos de Curdie para tirá-lo das armadilhas dos goblins.
A originalidade de George MacDonald tem também uma significância histórica, que talvez seja mais bem estimada ao compará-lo com seu grande conterrâneo Carlyle. É uma medida do real poder e mesmo da popularidade do Puritanismo na escócia que Carlyle nunca tenha perdido o humor Puritano, mesmo quando ele perdeu toda a teologia puritana. Se uma fuga do viés do ambiente for um teste de originalidade, Carlyle nunca escapou completamente, mas George Macdonald, sim. Ele desenvolveu, a partir de suas próprias meditações místicas, uma teologia alternativa completa que levava a um humor completamente oposto. E nessas meditações místicas ele aprendeu segredos muito além da mera extensão da indignação Puritana com a ética e a política. Pois no gênio real de Carlyle havia um toque de intimidação, e onde quer que haja um elemento de intimidação há um elemento de trivialidade, de reiteração e de ordens repetidas. Carlyle nunca pôde dizer nada tão sutil e simples como a frase de MacDonald de que Deus é fácil de agradar e difícil de satisfazer. Carlyle estava demasiadamente obviamente ocupado com a insistência em que Deus era difícil de satisfazer; exatamente como alguns otimistas estão, sem dúvida, ocupados em insistir que Ele é fácil de agradar. Em outras palavras, MacDonald tinha criado para si mesmo um tipo de ambiente espiritual, um espaço e transparência de luz mística, que era absolutamente excepcional em seu ambiente nacional e denominacional. Ele disse coisas semelhantes aos ditos dos cavaleiros místicos, dos santos católicos, algumas vezes dos platônicos ou swedenborgianos, mas não pelo menos aos dos calvinistas, mesmo quando o calvinismo permanecia em um homem como Carlyle. E quando ele vier a ser mais cuidadosamente estudado como um místico, como eu acho que ele será quando as pessoas descobrirem a possibilidade de recolher suas joias dispersas em um conjunto muito irregular, perceber-se-á, imagino, que ele se posta antes como um ponto de mutação na história do cristianismo, como um representante da nação cristã da Escócia. Como os protestantes falam da estrela da manhã da Reforma, devemos estar autorizados a notar tais nomes aqui e ali como estrelas da Reunião.
A coloração espiritual da Escócia, como a cor local de tantos sarracenos escoceses, é um roxo que sob algumas luzes pode parecer cinza. A característica nacional é na realidade intensamente romântica e apaixonada; na verdade, excessiva e perigosamente romântica e apaixonada. Sua torrente emocional tem apenas muito frequentemente se dirigido para a vingança, ou luxúria, ou crueldade ou bruxaria. Não há embriaguês como a embriaguês escocesa; ela tem em si o barulho antigo e a estridência selvagem dos Mênades das montanhas. E, claro, é igualmente verdade quanto ao lado bom, como na grande literatura da nação. Stopford Brooke e outros críticos apontaram com razão que um senso vívido de cores aparece nos poetas escoceses medievais antes deste aparecer de fato entre qualquer poeta inglês. E é absurdo falar da dura e perspicaz sobriedade do tipo nacional que se tem feito mais bem conhecido por toda parte no mundo moderno pelo literalismo prosaico do “Tesouro da ilha” e o realismo monótono de “Peter Pan”. No entanto, por um estranho acidente histórico, este povo vívido e colorido foi forçado a vestir-se de preto numa espécie de funeral sem fim num eterno Sabá. Na maioria das peças e quadros, entretanto, em que eles são representados quando vestidos de preto, alguns instintos fazem o ator ou o artista verem que eles não combinam muito bem. E assim o fazem.
Os escoceses apaixonados e poéticos – como os italianos apaixonados e poéticos –devem, obviamente, ter tido uma religião que competia com a beleza e vivacidade das paixões, que não deixava o diabo ter todas as cores brilhantes, que respondia glória com glória e fogo com fogo. Isso teria equilibrado Leonardo com São Francisco; nenhum jovem ou pessoa viva realmente pensa que isso pode ser equilibrado com John Knox. A consequência foi que este poder nas letras escocesas, especialmente no dia (ou noite) da plena ortodoxia calvinista, foi enfraquecida e desperdiçada centenas de vezes. Em Burns ela foi levada para fora de seu curso como loucura; em Scott, somente era tolerada como memória. Scott somente podia ser um medievalista tornando-se o que ele chamaria um antiquário, ou o que chamaríamos um esteta. Ele tinha de fingir que seu amor estava morto para que pudesse ser autorizado a amá-la. Assim como Nicodemos foi até Jesus à noite (ver Jo 3:1), o esteta somente vai à igreja à noite.
Agora, entre os muitos homens de gênio que a Escócia produziu no século XIX, havia apenas um tão original para voltar a sua origem. Havia apenas um que realmente representava o que a religião escocesa deveria ter sido, se tivesse mantido a coloração da poesia escocesa medieval. Em seu tipo particular de obra literária, ele de fato percebeu o aparente paradoxo de São Francisco de Aberdeen, vendo o mesmo tipo de halo em torno de uma flor e de um pássaro. Não é a mesma coisa que a apreciação da beleza da flor ou do pássaro. Um bruto pode sentir isso e continuar bruto, ou, em outras palavras, continuar triste. É um certo senso especial de significância, que a tradição que mais a valoriza chama sacramental. Ter voltado para isso, ou avançado para isso, num salto de meninice, para fora do negro Sabá de uma cidade calvinista, foi um milagre de imaginação.
Ao notar que ele bem pode ter este lugar na história, no sentido da religião e da história nacional, eu não tento aqui fixar seu lugar na literatura. Em todo caso, ele é um dos tipos que é mais difícil de classificar. Ele não escreveu nada vazio; mas ele escreveu muito que é tão cheio e cuja apreciação depende antes de uma simpatia com a substância do que à primeira vista com a forma. De fato, os místicos não são com frequência homens de letras em seu sentido perfeito e quase profissional. Um homem cuidadoso encontrará mais sobre o que pensar em Vaughan ou Crashaw do que em Milton, mas ele também encontrará muito a criticar; e ninguém precisa negar que, no sentido ordinário, um leitor casual pode desejar que haja menos de Blake e mais de Keats. Mas mesmo essa permissão não deve ser exagerada; e é exatamente no mesmo sentido em que nos compadecemos de um homem que perdeu tudo de Keats ou de Milton, que podemos sentir compaixão pelo crítico que não caminhou na floresta de Phantastes ou não tomou conhecimento do Sr. Cupples nas aventuras de Alec Forbes.

George MacDonald e sua obra




Por G. K. Chesterton

Um a um, os grandes romancistas da era vitoriana têm renascido para a democracia na forma de edições populares, de modo que, agora, qualquer aspirante a limpador de chaminés pode ter o núcleo de uma biblioteca muito boa por apenas alguns xelins. Há um escritor a quem o Sr. Newnes[1] só notou dessa maneira e que é, salvo engano, um dos homens mais notáveis de nosso tempo. O Dr. George MacDonald será redescoberto um dia, como Blake[2] o foi – um outro homem de gênio, embora artisticamente imperfeito. Até lá, porém, ele será, também como Blake, negligenciado, desprezado e explorado industrialmente por pessoas que querem tomar emprestadas algumas ideias. Se ser um grande homem é manter o universo em sua cabeça ou em seu coração, o Dr. MacDonald é grande. Nenhum homem traz consigo uma atmosfera heroica com tanta naturalidade. Certa vez, ele encenava o papel de Generoso, personagem de “O peregrino”[3], e a mera possibilidade de que isso acontecesse já é simbólica, pois não tal coisa seria possível a qualquer outro homem moderno. O ideal de Matthew Arnold[4] numa armadura reluzente ou do professor Huxley[5] movendo uma espada diante da ribalta não nos impressionaria com gravidade genuína. Mas o Dr. MacDonald parecia uma figura elementar, um homem desligado de qualquer época particular, uma personagem de um de seus próprios contos de fadas, um verdadeiro místico a quem o sobrenatural era natural.
Muitos escritores religiosos escreveram alegorias e contos de fadas que deram origem à convicção geral de que nada mostra tão pouca espiritualidade quanto uma alegoria, e nada contém tão pouca imaginação quanto um conto de fada. Mas o Dr. MacDonald está separado destes por um abismo de profunda originalidade de intenção. A diferença é que o conto de fadas comum é uma alegoria da vida real. Os contos da vida real do Dr. MacDonald são alegorias, ou versões disfarçadas, de seus contos de fadas. Não é que ele veste os homens e os incidentes como cavaleiros e dragões, mas ele considera que os cavaleiros e dragões, de fato existentes no mundo eterno, estão aqui vestidos como homens e incidentes. Para ele, não é a coroa, o capacete e a auréola que são a fantasia; é a cartola e o fraque que são, digamos, o disfarce dos conspiradores no palco terrestre. Seus contos alegóricos de gnomos e grifos não encobrem com um véu; eles o rasgam. Num desses estranhos livros meio indecifráveis, como o livro de um profeta, publicado por ele já em idade avançada, o herói é apresentado como uma gloriosa roseira, e diz-se que ela permaneceu no mesmo lugar, como um piano numa sala de visitas. Compreender essa ideia é compreender George MacDonald, desde que nos lembremos de que não é a roseira que é o símbolo, mas o piano.
No livro com que o Sr. Newnes iniciou a publicação popular da obra do Dr. MacDonald, “O Marquês de Lossie”, isso fica muito claro. Não é uma de suas melhores obras; artisticamente falando, está repleta de defeitos. Mas quase todos os defeitos de seu romance são as virtudes de um conto de fadas. A clareza da questão ética, a guerra límpida da luz contra as trevas, sem lusco-fusco, ceticismo ou timidez; o senso elementar da paisagem e do homem como filho da Natureza, o heroísmo imaculado dos heróis, a patente deformidade dos personagens maléficos; tudo isso, enfim, mostra um espírito alerta ao mundo com o olhar jovem, inocente e terrível de Jack, o Matador de Gigantes.[6] O Dr. MacDonald é um poeta bom demais para ser um romancista do mais alto grau, pois a glória do romancista é olhar para o mundo de centenas de pontos de vista; a glória do poeta é vê-lo desde um único. O Dr. MacDonald vê o mundo banhado num terrível carmesin de amor divino. Ele não é capaz de descrever o cínico melhor do que Shelly[7] poderia ter descrito um merceeiro batista ou Keats[8], um comerciante da cidade. Os vilões da moda no romance do Dr. MacDonald não são as bestas do campo, fúteis, bem-humoradas e previsíveis – tão dignas e calmas quanto as vacas – que tais homens realmente são. Eles são ininteligíveis, criaturas feias, como os dragões de um conto de fadas que devoram donzelas por um capricho sobrenatural. Eles existem para ser combatidos, não estudados.
Mas o ponto interessante sobre “O Marquês de Lossie”[9] é que este contém todo o segredo da obra do Dr. MacDonald: é a história de um jovem pescador escocês que, em sua invencível simplicidade e honra, vai a uma casa da moda em Londres, a fim de resgatar uma elegante dama (que ele sabe ser sua meia-irmã) de um infeliz casamento de conveniência. A história, como eu disse, não é contada com a plenitude da arte do Dr. MacDonald. É difícil apontar uma única cena que esteja perfeitamente proporcionada, e na qual não haja filosofia demais e psicologia de menos, embora toda a história seja tão vívida e tensa como uma história policial. Nós a lemos com um profundo sentimento de que algo grandioso nos excita, e não podemos dizer o que é. Isso só vai ficar claro para nós se acontecer de nos lembrarmos do grande conto de fadas de MacDonald, “A princesa e Curdie”[10]. Trata-se da história de um menino garimpeiro que, sob as instruções misteriosas de uma fada-vovozinha, parte para salvar um rei e uma princesa dos planos de uma cidade monstruosa e má. De repente, percebemos que as duas histórias são a mesma, que uma se passa dentro da outra, e que o romance realista é a concha e o conto de fadas é a pérola. Toda a estranheza, toda a digressão, toda a indelicadeza e toda a lerdeza do incidente simplesmente querem dizer que o herói almeja jogar fora o chapéu preto e o casaco de Mawlcolm MacPhail e declarar-se como Curdie, o campeão das fadas. Toda a emoção da história reside no fato de que sabíamos que ele era assim.
O Dr. MacDonald entra no reino das fadas como um cidadão que volta para casa. Mas, embora seja um místico genuíno e um genuíno celta, ele não reapareceu no movimento do misticismo celta de nossos dias[11], sobretudo por causa de uma ideia singular que dominou tal movimento: a ideia de que o dever de um místico é ser melancólico. Levará um século ou dois, talvez, para que se perceba uma verdade que o Dr. MacDonald, imagino, sempre soube: a melancolia é uma bobagem se comparada à seriedade da alegria. A melancolia é negativa e tem a ver com trivialidades como a morte; a alegria é positiva e tem a resposta para o renovo e para a perpetuação do ser. A melancolia é irresponsável. Ela pode assistir ao universo cair em pedaços; a alegria é responsável e sustenta o universo no vazio do espaço. Essa concepção de vigilância do Poder universal permeia todos os romances de MacDonald com uma insondável gravidade de completa felicidade, a gravidade de uma criança que brinca. Um brilho curioso impregna seus livros: as flores parecem chamas coloridas soltas do coração flamejante do mundo – cada arbusto é uma sarça ardente, ardendo pela mesma razão que a de Moisés. Este sentido de um segredo perfeito quase dolorosamente mantido pelo universo é o que envergonha o fastio dos místicos modernos. Como se alguém que soubesse um segredo pudesse estar enfastiado!
Há outra questão artística em que o Dr. MacDonald deu uma contribuição profundamente original, e numa direção nunca seguida. Trata-se de sua percepção do grotesco no mundo espiritual. Ele escreveu poemas infantis cheios de um tipo de anarquia noturna, como os sonhos absurdos. A coruja diz:

I can see the wind; now who can do that?
I can see the dreams that he has in his hat.
Who else can watch the Lady Moon sit
On her nest the sea, all night, but the Owl?

[Posso ver o vento. Quem mais o pode ver?
Posso ver os sonhos que sua cachola pode ter.
Quem, senão a coruja, pode ver a Lua pousar
toda noite em seu ninho sobre o mar?]

Esse casamento extravagante de ideais não tem um sacerdote que o possa celebrar, exceto a livre imaginação. Mas a originalidade do Dr. MacDonald reside nisto: enquanto outros autores modernos escreveram histórias de nonsense, ele é o único que tem escrito o que se pode chamar de “nonsense celestial”. O mundo de “Alice no País das Maravilhas” é de uma loucura puramente intelectual: há ocasiões que, de fato, devem ocorrer a qualquer homem de imaginação: momentos em que de repente alguém se sente desprotegido e aterrorizado num mundo de loucura matemática, quando se sente que a desrazão é mais fria e mais cruel que a razão e quando se percebe a profunda verdade de que nada no mundo é tão desolador quanto a leveza ilimitada. Mas o mundo de extravagâncias do Dr. MacDonald, onde a lua choca os navios e as ostras se abrem para cantar, é penetrado pelo calor do “amor do mundo”, a irmandade cósmica das crianças. Até os monstros são bichinhos de estimação neste enorme berçário.
Como eu disse, o Dr. MacDonald será descoberto nalgum tempo por vir. Há homens e movimentos cujo momento em que passaram estão no ponto mais distante de nós, como um ponto de uma roda que acaba de tocar ao chão. Estamos vivendo agora entre poetas incapazes de conceber o poder universal contido em sentimentos maiores que os deles mesmos. Não podem imaginar, nas palavras grandiloquentes de Dante, “o amor que dirige o sol e as estrelas”, pois o amor sobre o qual escrevem seria incapaz de dobrar um cardo; mas o grande pensamento que o Dr. MacDonald diz, mas deixa não dito, num nó de otimismo fatalista nunca deixará completamente de nos assombrar e nos atacar.
Numa centena de momentos ímpares, em ruas tortuosas, nos campos sob o crepúsculo, nas salas de visitas à luz de velas, virá sobre nós a noção confusa, e ainda assim reconfortante, de que nós e todas as nossas filosofias nacionalistas estão no coração de um conto de fadas e desempenha nele um papel excepcionalmente bobo.


[1] Sir George Newnes, notável editor inglês. Informações: http://en.wikipedia.org/wiki/George_Newnes

[2] Poeta inglês William Blake. Mais informações: http://en.wikipedia.org/wiki/William_blake

[3] The Pilgrims Progress, de John Bunyan. Há diversas edições em língua portuguesa. Uma edição comentada foi publicada pela editora Fiel: http://www.editorafiel.com.br/detalhes.php?id=2034

[4] Poeta e crítico cultural inglês: http://en.wikipedia.org/wiki/Matthew_Arnold

[5] Provavelmente o escritor Leonard Huxley, pai de Aldous Huxley. Informações: http://en.wikipedia.org/wiki/Leonard_Huxley_(writer)

[6] Conto de fadas britânico: http://en.wikipedia.org/wiki/Jack_the_Giant_Killer

[7] Referência ao poeta britânico Percy Bysshe Shelley. Mais informações: http://en.wikipedia.org/wiki/Percy_Bysshe_Shelley

[8] Poeta inglês John Keats. Mais informações: http://en.wikipedia.org/wiki/John_Keats

[9] Texto na íntegra: http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/gmacdonald/The-Marquis-of-Lossie6x9.pdf

[10] Texto integral disponível em: http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/gmacdonald/The-Princess-and-Curdie6x9.pdf

[11] Lembre-se, Chesterton está escrevendo em 1901.