sexta-feira, 7 de março de 2014

Saudades de um tempo que não vivi



Só lá por princípios da década de quarenta é que nos foi possível pôr em prática o plano de “saneamento” de nossas traduções. Contratamos vários tradutores com salário fixo. Nas salas da Editora tivemos excelentes profissionais: Leonel Vallandro, Juvenal Jacinto, o Dr. Herbert Caro (advogado natural de Berlim, mas que havia aprendido a escrever corretamente em português), Homero de Castro Jobim e vários outros.

O processo da tradução de uma obra tornou-se então algo de muito elaborado. Escolhido o livro a verter-se para o português, procurava-se o tradutor, de acordo com a especialidade linguística de cada um. Feita a escolha do tradutor, este fazia sem pressa o seu trabalho, tendo à sua disposição uma rica biblioteca em que havia vários dicionários e enciclopédias. (A gigantesca Espasa-Calpe, a famosa Britannica, a Italiana e várias alemãs, francesas, inglesas e americanas.) lembro-me de que em cima duma pequena mesa avultava o “Webster grande”, grossíssimo e que – não sei bem por quê – me lembrava um avantajado queijo suíço. Depois que o tradutor dava por terminado o seu trabalho, os respectivos originais eram entregues a um especialista da língua de que o livro fora traduzido, para que ele os confrontasse, linha por linha, com o original, procurando verificar a fidelidade da versão. Mas o processo não terminava aí. Havia uma terceira etapa, a em que um especialista examinava o estilo do livro, discutindo-o com o tradutor, cujo nome ia aparecer sozinho no pórtico do volume. Em caso de divergência havia uma arbitragem. Os livros estrangeiros publicados durante os quatro ou cinco anos em que esse esquema durou, são de excelente qualidade no que diz respeito à tradução. O nosso chefe maior, porém, ficava apavorado – e com razão! – quando examinava o custo de tradução de cada obra.


Érico Veríssimo, Um Certo Henrique Bertaso. Porto Alegre, Editora Globo, 1973, p. 50-51. Reeditado pela Companhia das Letras.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Dois mestres e dois dedos de prosa sobre educação


Se exigirmos do homem o que ele deve ser, faremos dele o que ele pode ser. Se, pelo contrário, o aceitarmos como é, então acabaremos por torná-lo pior do que é. Viktor Frankl (citando Goethe de memória). In: Sede de Sentido. Trad. Henrique Elfes. São Paulo, Quadrante, 2003, p. 15.

***

Depois de mais de cinquenta anos ministrando preleções formais em universidades e para todos os tipos de público, aprendi uma lição importante [...]. Não seja condescendente com sua plateia ao abordar assunto algum. Se fizer isso, você será rejeitado de imediato, e com razão. Por que seus ouvintes deveriam se esforçar para ouvi-lo se você está lhes dizendo algo que já sabem ou já compreendem por completo?
Sempre se arrisque a falar difícil! Através do fervor emocional do seu discurso, de sua energia física e do seu claro envolvimento corporal com conteúdos obviamente abstratos, você deve levá-los a ampliar suas mentes e a vislumbrar o que não vislumbravam antes.
Não há mal algum em dizer coisas que não compreendam. É muito melhor para eles saber que conseguiram entender algo através do próprio esforço (ainda que também sintam que algumas coisas lhes escaparam) do que ficarem sentados em seus lugares, sentindo-se insultados pela maneira condescendente com que você se apresentou.
Mortimer Adler, Como Falar, Como Ouvir. Trad. Hugo Langone. São Paulo, É Realizações Editora, 2013, p. 62.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O marxismo do século XX


Adolpho Crippa, “O marxismo do século XX”. In: Convivivm: revista de investigação e cultura. São Paulo, maio-junho de 1969, p. 232-35.

Lendo alguns comentários a respeito do recente XIV Congresso Internacional de Filosofia, realizado em Viena, vieram-me à mente algumas reflexões. O marxismo foi o tema predileto de muitas teses, comunicações, discussões e conversas. Muitos participantes concordaram na afirmação de que “o marxismo é o humanismo do século XX”! Superado no plano da realidade humana, ultrapassado no plano da realidade histórica, o marxismo surge como uma extraordinária força de doutrina de salvação. O fato merece atenção e reflexão. A insuficiência prática do marxismo na edificação de uma sociedade humana pacificada, longe de ter abalado, aumentou a fé e o entusiasmo de muitos intelectuais.

O primeiro fato, no entanto, digno de nota é a multiplicidade de teorias e interpretações marxistas. Já não há um “marxismo ortodoxo” como o imposto pela União Soviética das eras leninista e stalinista. Lenin fez da doutrina de Marx o suporte teórico da revolução russa.[1] Outros teóricos buscam realizar a mesma proeza demonstrando que o marxismo é, antes de mais nada, uma visão filosófica do mundo, na qual é preciso crer mais ou menos dogmaticamente e à qual as realidades devem ser forçosamente adequadas. 


Os marxistas dos nossos dias, porém, acostumaram-se a agir com muita liberdade dentro do marxismo, mais preocupados com a “revolução” do que com a fidelidade doutrinária ou com a afirmação do sistema. Esta situação agravou-se a tal ponto nos últimos anos que, ao final das contas, tudo pode ser dito em nome do marxismo. O “livre exame” marxista nos conduz aos caminhos mais contraditórios.


Não basta dizer que, mudadas as circunstâncias, é necessário mudar o marxismo. Não é suficiente dizer que muitos elementos do marxismo devem mudar porque os fatos e a razão demonstraram falsos. No caso marxista não se pode aplicar o princípio “devemos ser marxistas como seria Marx em nossa época”. Exatamente porque em nossa época Marx não seria marxista. É muita vontade de ser marxista dizer que, mudadas as circunstâncias econômicas, sociais, filosóficas e políticas, devem-se suprimir os princípios sistemáticos, para salvar o que permanece válido. Em primeiro lugar, porque o marxismo, sendo uma doutrina historicista, está vitalmente ligado às circunstâncias vistas ou previstas. Em segundo lugar, porque é imprescindível examinar a relação entre o que deve ser abandonado e a totalidade do sistema. Se as teses superadas são a própria essência do marxismo, é difícil imaginar como se possa salvar ou atualizar o marxismo. É claro, para o marxista sempre será essencial o que restar após a depuração da história e da razão! Mas esta atitude já não é marxista, porque o marxismo se apresenta como ciência e não como fé.


Nos últimos anos, os marxistas insistiram na tecla do humanismo. Abandonando as obras da maturidade, releram os escritos da juventude hegeliana de Marx e descobriram os valores do humanismo dialético e materialista. Garaudy, Sartre e muitos outros[2] exaltaram com entusiasmo o humanismo marxista. Hoje todos se encontram em pânico. De um lado, pela insuficiência interna de um humanismo terrenista que não encontra justificação em si mesmo. De outro lado, pelo sucesso do estruturalismo. Garaudy, no seu estudo “Estruturalismo e a morte do homem” luta para salvar o “homem” da ameaça estruturalista, como se o estruturalismo matasse alguém. Dizer que o homem produz o humano, que o homem cria as línguas, os mitos e as religiões, organiza a sociedade e as próprias estruturas, como fez Garaudy, é dizer o óbvio. Mas se o homem é produto do homem alguma “estrutura” deve preceder o próprio homem, alguém deve precedê-lo. Em todo caso, os estruturalistas criarão certamente muitos problemas ao humanismo marxista que não pode buscar uma justificação fora de si mesmo e do sistema.[3]


Muitos marxistas já reconhecem a impossibilidade de salvar o sistema dialético como explicação de todo o real, uma vez que as ciências modernas (física, biologia, psicologia, astrofísica, química) demonstram a cada dia que a realidade é mais complexa do que os três movimentos da dialética hegeliana.[4] E a realidade histórica não é muito mais complexa do que a realidade física? Quem pode negar a interferência do livre-arbítrio no acontecer histórico? Surge então a pergunta: se o materialismo dialético e o materialismo histórico não explicam a realidade mundana e humana, o que resta do marxismo? Outros marxistas vão mais longe. Sem dialética não pode haver luta entre classes; sem a oposição das classes a ideologia não tem sentido; sem a ideologia do proletariado o sonho da revolução mundial cai por terra. Haverá algum marxista que sonhe com o paraíso terreal, ao termo da revolução? Paraíso sem Estado, sem propriedade privada, sem necessidades diferentes? Haverá ainda historiadores que dividam a história humana nos grandes períodos: coletivismo primitivo, escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo e comunismo paradisíaco?


Não sei, na verdade, como ficaria o marxismo que se contentasse em ser antirreligioso e naturalista, afirmando os valores do homem e do trabalho em vista de um mundo mais humano. Sem os pressupostos sistemáticos, acima referidos, tudo isso deixa de ser marxismo. O sonho de Prometeu é muito anterior a Marx e perturba as noites de todos os homens. Querer fazer do marxismo um mero “prometeísmo” é, mais uma vez, muita vontade ser marxista.


Estas reflexões levaram-me a reler o Epílogo que Marcuse escreveu em 1954 ao livro “Reason and Revolution”. Marcuse reconhece que a tentativa de Marx teve a mesma sorte que a de Hegel. A Razão, quer como Espírito quer como Revolução, acabou colaborando na construção da sociedade repressiva. Escreve Marcuse: “Marx acreditava que a sociedade industrial havia criado as condições prévias para a realização da Razão e da Liberdade, e que apenas a organização capitalística desta sociedade impedia a realização das mesmas. A plena maturidade das forças produtivas, o domínio sobre a natureza, a grande riqueza material – suficiente para satisfazer, pelo menos, as necessidades básicas de todos os membros da sociedade, ao nível cultural atingido – todos esses eram os requisitos prévios do socialismo; e estes estavam criados. Entretanto, a despeito deste laço substancial entre a produtividade capitalista e a liberdade socialista, Marx pensava que só uma revolução e só uma classe revolucionária poderiam levar a termo a transição”.[5] Toda revolução, porém, tem um antes e um depois. Continua Marcuse: “A importância decisiva dada à relação entre o proletariado pré-revolucionário e pós-revolucionário só ficou demonstrada depois da morte de Marx, quando da transformação do capitalismo livre em capitalismo dirigido. Foi este desenvolvimento que transformou o Marxismo em Leninismo e que determinou o destino da sociedade soviética: seu progresso sob uma nova forma de produtividade repressiva. A concepção de Marx do proletariado ‘livre’ como negação absoluta da ordem social estabelecida liga-se ao modelo do capitalismo ‘livre’; ao modelo de uma sociedade em que a livre ação das leis e relações econômicas básicas fariam aumentar as contradições e tornar o proletariado industrial a vítima principal e, ao mesmo tempo, o agente autoconsciente de uma solução revolucionária”.[6] A força revolucionária acabou absorvida pelo próprio sistema da produtividade ou da sociedade em crescimento. Nos países industriais avançados “as contradições internas foram sendo dominadas por uma organização progressivamente eficiente, e a força negativa do proletariado foi sendo progressivamente reduzida”. Não somente uma pequena “aristocracia operária”, mas a maior parte das classes trabalhadoras tornou-se parte positiva da sociedade estabelecida”.[7] Marx também foi vencido pela Razão. A produtividade e a tecnologia resolveram os problemas que garantiam a Revolução. Supusera-se que não apenas o empobrecimento, mas o empobrecimento em face da produtividade social crescente faria do proletariado uma força revolucionária. O conceito marxista de empobrecimento implica a consciência das potencialidades bloqueadas dos homens, e da possibilidade de sua realização – a consciência, portanto, da alienação e da desumanização. Mas, por essa época, o desenvolvimento da produtividade capitalista freou o desenvolvimento da consciência revolucionária. O progresso tecnológico multiplicou as necessidades e as satisfações e a utilização deste progresso tornou as necessidades, e também a satisfação das mesmas, repressivas: estas é que garantem a submissão e o domínio”.[8] Marcuse tem todo o direito de acreditar numa “forma diferente de Razão e Liberdade, sonhada tanto pelo idealismo dialético como pelo materialismo”,[9] assim como os demais marxistas têm todo o direito de acreditar nas forças da Matéria, da História, do Proletariado, da Revolução. Mas a esta altura já estamos fora do domínio da ciência e da própria razão.


[1] G. Wetter insistiu no Congresso de Viena na distinção entre Marxismo e comunismo histórico.
[2] Alguns não marxistas, como Lacroix e Mondolfo, também se entusiasmaram com os escritos do jovem Marx.
[3] E a todos os humanismos terrenistas ou apenas humanos.
[4] G. Wetter examina as dificuldades das cientistas soviéticos em adaptar seus estudos e descobertas às exigências do materialismo histórico no livro Filosofia y Ciencia em la Union Sovietica, Mardird, 1968.
[5] Herbert Marcuse, Razão e Revolução. Trad. M. Barroso. Ed. Saga, 1969, p. 400-01.
[6] Ididem, p. 401-02.
[7] Ididem, p. 402.
[8] Ididem, p. 402-03.
[9] Ididem, p. 405.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Cardeal Newman, na Revista Terminal

Só de olhar o conteúdo da revista, já começo a temer não conseguir me manter à altura dela. Vida longa à Revista Terminal. Nesta edição, traduzo um "Fragmento sobre o ceticismo", do Cardeal John Henry Newman. Reproduzo abaixo um trecho e o link do pdf:


A tendência de uma era de pensamento, vista como divorciada da influência da religião, é cair num estado de ceticismo, assim como a tendência de uma era de ignorância [...] é cair na superstição. De fato, e mesmo do ponto de vista histórico, tanto a estagnação quanto a atividade do pensamento têm sido hostis à verdade divina; não decerto por algo que lhes é intrínseco – pois a religião realmente é favorecida pela livre investigação, embora possa prescindir dela –, mas porque há em operação princípios mais profundos e mais sutis de nossa natureza, os quais, no estado de guerra contra a religião que lhe é peculiar, fazem uso da livre investigação ou da obstinação irracional como seus instrumentos. Orgulho, sensualidade, egoísmo, mundanismo, desconfiança de Deus e semelhantes maus princípios são os verdadeiros inimigos da religião; e, como estes são o espírito dominante de todas as eras do mundo, a forma que sua hostilidade assume contra ela, numa era de ignorância, é a superstição; numa era de investigação, é o ceticismo.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Viktor Frankl e eu

Mais um vídeo de Viktor Frankl legendado por mim. A pouco e pouco, vou fazendo este trabalho de diletante. Devo tanto ao Dr. Frankl que o mínimo que devo fazer é ajudar a difundir a sua obra.

A cura pelo sentido



O vídeo anterior, também legendado por mim, era o seguinte:

Sentido último e religião

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Nos bastidores de uma editora

Fiz uma pequena seleção de vídeos que tratam do mercado editorial. De tudo um pouco: tem Luciana Villas-Boas e Lúcia Riff falando sobre agenciamento literário (mas não só); tem o Jaime Pinski ensinando como costuma ser calculado o preço do livro; Boris Schnaiderman, José Paulo Paes e outros tradutores falando sobre o trabalho do tradutor; tem um vídeo sobre a figura fantasmagórica do ghost writer; tem vídeo sobre os diferentes processos de impressão. Enfim, se tiverem tempo e paciência, creio que valha a pena assistir.
Luciana Villas-Boas (Parte 1)


Luciana Villas-Boas (Parte 2)


Lucia Riff


O preço do livro


Tradutores


Ghost Writer


Diferentes métodos de impressão

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dez livros, dez citações


Fazendo coro com amigos que fizeram suas listas de melhores leituras de 2013, selecionei as minhas 10 e, para me poupar de ter de dizer algo por mim mesmo, optei por selecionar trechos capazes de dar o tom do que se encontra nessas obras. Ainda que a lista valha pouco, gostei do exercício de fazer a retrospectiva.


Jean Gauvain (org.), Relatos de um Peregrino Russo


Se fabricas alguma coisa deves pensar no Criador de tudo o que existe. Se vês a luz do dia, lembra-te daquele que criou a luz para ti; se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm, admira, glorifica aquele que tudo criou; se te vestes com uma roupa, pensa naquele de quem a recebestes e lhe agradece, a ele que provê a tua existência. Em resumo, que todo movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor: assim rezarás sem cessar e tua alma estará sempre alegre.


Pequena Filocalia: O livro clássico da Igreja Oriental


Teonás diz: “Caímos no cativeiro das paixões da carne, porque nosso espírito negligencia a consideração de Deus”.

Poimém diz: O princípio de todos os males é a distração.

Os demônios te veem cheios de ardor pela verdadeira oração? Eles te sugerem, então, o pensamento de certas coisas, que te apresentam como necessárias. Depois, não tardam a avivar a lembrança que a elas se liga, levando a inteligência a procurá-las. A inteligência não as encontra, entristece-se profundamente e se aflige. Chegado o momento da oração, eles devolvem então à memória os objetos de suas buscas e de suas lembranças; assim, enfraquecida por essa associações, ela não vai conseguir realizar a oração proveitosa.


Flannery O’Connor, A Prayer Journal


Comece com a alma e talvez os dons temporais que pretendo exercitar tenham sua chance; e se não tiverem, já tenho o melhor em minhas mãos, a única coisa necessária. Deus deve estar em toda a minha obra.

Encontrei uma paz em minha alma nesses dias que é muito agradável – não nos deixe cair em tentação. O nível da narrativa, ora! Trabalho, trabalho, trabalho. Querido Deus, permita que eu trabalhe, mantenha-me trabalhando, quero ser capaz de trabalhar. Se meu pecado é a preguiça, quero ser capaz de vencê-la.


Georges Bernanos, Diálogos das Carmelitas


Quem lê nossos bons livros pode pensar que Deus experimenta os santos como um ferreiro uma barra de ferro, a fim de medir sua resistência. Mas também o curtidor experimenta com as mãos a pele de camurça, para avaliar sua maleabilidade. Oh, minha filha, seja sempre essa coisa doce e maleável em suas mãos! Os santos não ficavam duros diante das tentações, não se revoltavam contra si mesmos; a revolta é sempre coisa do diabo e, sobretudo, não se despreze jamais! É muito difícil desprezar-se sem ofender a Deus, que habita em nós. Outra coisa sobre isto, temos de ter o cuidado de não levar ao pé da letra algumas palavras dos santos, o desprezo de si mesma a conduziria diretamente ao desespero; lembre-se dessas palavras, embora agora pareçam obscuras. E, para resumir tudo com uma palavra que nunca está em nossos lábios, apesar de nossos corações não a terem renegado: seja qual for a situação pense que sua honra está sob a tutela de Deus.


Andrei Pleșu, Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental e outros ensaios


Primum vivere, deinde philosophari” [primeiro viver, depois filosofar]: um dito tão célebre quanto trivial, um modo de converter o mínimo em valores primordiais. Na realidade, um homem completo e uma sociedade saudável têm necessidade ao mesmo tempo dos benefícios da subsistência e da reflexão, de meias e de sonhos, do pão diário e de utopias. No Leste Europeu, faltam-nos, por ora, assim uns como os outros. E não podemos aceitar que o quinhão da geração atual seja o de “vivere”, ficando a filosofia para ser financiada mais tarde... No que me diz respeito, tenho em mente um retrato ideal do patrocinador “cultural” e, de outro modo, creio que o encontrei algumas vezes: é alguém que, depois de investir lucrativamente em grandes projetos de educação universitária, em pesquisas acerca da arte de governar, legislação, liberalismo, ecologia e minorias, em programas de revitalização econômica e institucional, sente necessidade de sair do circunstancial, do razoável de primeira instância, para investir num jogo com contas de vidro. Mostrou-se rentável financiar a instalação de Newton sob a maçã ou a navegação utópica de Colombo. Os homens não ficam mais pobres se, de vez em quando, consentem em dar de comer aos Serafins...


Russell Kirk, A Política da Prudência


Espiritual e politicamente, o século XX foi uma época de decadência. No entanto, ao aproximar-se o fim do século, podemos lembrar que eras de decadência foram, por vezes, sucedidas por períodos de renovação.

O que vós podeis fazer, moças e rapazes da nova geração da década de 1990, para elevar a condição humana a um nível menos indigno do que Giovanni Pico Della Mirandola (1463-1494) chamou de “a dignidade do homem”? Ora, iniciai por iluminar o local onde vos encontrais; por aperfeiçoar uma unidade humana, a vossa, e por dar auxílio ao próximo.

Não precisareis ser ricos ou famosos para “redimirdes o tempo”: o que precisais para realizar tal tarefa é o unir a vossa imaginação moral à reta razão. Não é pela riqueza ou pela fama que sereis recompensados, provavelmente, mas por momentos eternos: aquelas ocorrências na existência de cada um de vós, na expressão de T. S. Eliot (1888-1965), em que se dá a “interseção do temporal como o atemporal”. Em tais momentos, podereis descobrir a resposta à aquela pergunta imemorial que, vez ou outra, chega à mente de qualquer ser reflexivo, “O que é tudo isso? O que é este mundo que nos circunda e por que estamos aqui?”.


Lima Barreto, Bruzundangas


A política não é aí uma grande cogitação de guiar os nossos destinos; porém, uma vulgar especulação de cargos e propinas.

Sendo assim, todas as manifestações de cultura dessa sociedade são inferiores. A não ser em música, isto mesmo no que toca somente a executantes, os seus produtos intelectuais são de uma pobreza lastimável.

Há lá salões literários e artísticos, mas de nenhum deles surgiu um Montesquieu com o Espírito das Leis, como saiu do Mme. du Deffand. As obras mais notáveis que lá têm aparecido são escritas por homens que vivem arredados da sociedade bruzundanguense.

Em uma sala desse país, quando não se trata de intrigas políticas ou coisas frívolas de todos os dias, surge logo um tédio inconcebível. Ele sepulta o pensamento, antes de mata-lo: enterra-o vivo. Mereceria detalhes, mas só fazendo romance ou comédia.


Osman Lins, Do Ideal e da Glória


[...] Espanta e faz medo que as pessoas ligadas à cultura e das quais, por isso mesmo, esperamos, diante de assuntos culturais, uma atitude cultural, venham engrossando as águas de correntes não culturais com os seus pronunciamentos e atitudes. Como se fossem portadores de AUTORIDADE, e não portadoras de CULTURA.

O fato, mais ou menos repetido, merece a atenção de todas as pessoas em condições de refletir sobre ele. Apresenta uma característica hoje muito em uso; liga pedaços de verdade a coisas inaceitáveis. Enxerta-se alguma verdade no absurdo, de modo que este se apresenta como demonstrado e provado. E não é raro – contrariando o velho axioma da aritmética, o de que não podemos somar quantidades heterogêneas – misturar fatores disparatados.


Ray Bradbury, O Zen e a Arte da Escrita


E o que [...] escrever nos ensina?

Primeiro e mais importante, escrever nos faz lembrar de que estamos vivos e de que isso é uma dádiva e um privilégio, não um direito. Devemos ganhar a vida, já que ela nos foi dada. A vida pede recompensas porque ela nos proveu de ânimo.

Então, embora a nossa arte não possa, por mais que desejemos, livrar-nos da guerra, da privação, inveja, cobiça, velhice ou morte, podemos nos revitalizar no meio disso tudo.

Em segundo lugar, escrever é sobreviver. Qualquer arte, qualquer bom trabalho naturalmente é isso.

Não escrever, para muitos de nós, é morrer.

Devemos pegar nossas armas a cada dia e todos os dias, talvez sabendo que se a batalha não pode se completamente ganha, devemos lutar, ainda que desferindo golpes leves. O menor esforço para ganhar significa, ao final de cada dia, uma espécie de vitória. Lembre-se do pianista que dizia que, se não praticasse todos os dias, ele saberia; se não praticasse por dois dias, seus críticos saberiam; depois de três dias, seu público saberia.


Gladstone Chaves de Melo, Iniciação à Filologia Portuguesa


Ora, o que essa aberração que chamamos “gramatiquice” faz é deduzir normas tiradas da lógica ou, o que é pior, do gosto ou das implicâncias pessoais dos gramatiqueiros, dos puristas, dos buriladores de frases. Um tem antipatia pela forma “apiedo-me”, a outro não lhe sabe bem a concordância um dos que mais trabalhou, a tal outro lhe repugna a regência “amor por”. E dá-lhe a condenar isto ou aquilo, como galicismo, como barbarismo e sei lá que mais.

O resultado de tudo é que o fundamento da gramatiquice fica sendo o capricho pessoal, a opinião, qualquer coisa de essencialmente múltiplo e variável. E então vêm as querelas, vem o “Fulano acha”, “Beltrano prefere”, “Sicrano condena”. Vem o argumento de autoridade, vêm as inúteis citações de vernaculistas de má morte, vêm os severos preceitos vazados na pior das linguagens, a linguagem toda impregnada do intolerável “ranço gramatical”.

É natural, pois, que os homens sensatos se distanciem de tal literatura, concluindo sadiamente que isso é ocupação de ociosos.