segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Senso do mistério e senso da realidade




O tipo de mente capaz de compreender a boa ficção não é necessariamente a mente educada, mas é sempre a mente disposta a ter seu senso de mistério aprofundado pelo contato com a realidade, e seu senso de realidade aprofundado pelo contato com o mistério. A ficção pode ser sóbria e misteriosa ao mesmo tempo. Em boa parte da crítica popular, vigora a ideia de que toda ficção deve ser a respeito do Homem Médio e tem de retratar a vida cotidiana ordinária, que todo escritor de ficção deve produzir o que se costuma chamar “uma parcela da vida”. Mas se a vida, neste sentido, nos satisfizesse, não haveria sentido em produzir literatura nenhuma.


***


Não sei o que é pior: ter tido um professor ruim ou não ter tido professor nenhum. Em todo caso, acredito que o trabalho do professor deve ser em larga medida negativo. Ele não pode conferir-lhe o dom, mas, se o encontra, pode tentar guardá-lo de seguir numa direção flagrantemente equivocada. Podemos aprender como não escrever, mas esta é uma disciplina que não diz respeito apenas à escrita propriamente dita, mas a toda a vida intelectual. Uma mente livre de emoções falsas, de sentimentos falsos e de egocentrismo terá ao menos esses obstáculos removidos de seu caminho. Se o pensamento não é vulgar, ao menos não haverá vulgaridade em sua escrita, ainda que você não seja capaz de escrever bem. O professor pode tentar eliminar o que é positivamente ruim, e este deve ser o propósito de toda instituição de ensino. Todas as disciplinas podem ajudá-lo a escrever: lógica, matemática, teologia e, claro, desenho. Qualquer coisa que o ajude a ver, qualquer coisa que o faça olhar com atenção. O escritor jamais deve se envergonhar de ser um observador. Não há nada que não exija sua atenção. 

Flannery O’Connor, "The Nature and Aim of Fiction". In: Mystery and Manners: Occasional Prose. New York: Farrar, Straus & Giroux, 1970.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Aquilo que Deus nos dá


Em minha forma de pensar, a única coisa que me impede de tonar-me uma escritora regional é ser católica, e a única coisa que me impede de ser uma escritora católica (em sentido estreito) é ser sulista. Mas o elemento religioso é, em grande medida, ignorado.

Para Andrew Lytle, 15 de setembro de 1955.


A um professor de Notre Dame:

O silêncio da crítica católica com grande frequência é preferível a sua atenção. Sempre olho nas revistas católicas que minha mãe lê se meu livro foi resenhado e, quando percebo que não o foi, dou graças a Deus. Não deveria ser assim e, no meu caso, a ironia da recepção silenciosa de minha obra pelos católicos é o fato de que escrevo como escrevo justamente porque sou católica. Desconfio de que, se não fosse católica, não teria razão para escrever, nem para ver, nem mesmo para horrorizar-me ou para deleitar-me em algo. Nasci católica, na infância frequentei escolas católicas, nunca deixei nem desejei deixar a Igreja. Nunca tive a sensação de que ser católica é uma limitação à liberdade do escritor, mas o exato oposto. A Sra. [Caroline Gordon] Tate contou-me que, depois que se tornou católica, sente que podia usar os olhos e aceitar pela primeira vez aquilo que via; não tinha de criar um universo novo a cada livro, mas podia tomar aquele que já encontrara. Sinto que ser católica permitiu-me que economizasse milhares de anos de aprendizagem da arte da escrita... Não estou muito certa de que o papel do escritor católico é refletir algo além do que ele vê da melhor maneira possível; mas a questão do que é e do que não é um romance católico é algo que sempre evito. Por fim, escrevemos o que podemos, aquilo que Deus nos dá.

Para John Lynch, 6 de novembro de 1955.


Outro dia [minha mãe] perguntou-me por que não tento escrever algo de que as pessoas gostem em vez de escrever o tipo de coisas que escrevo. Achas, ela disse, que realmente estás fazendo bom uso do talento que Deus te deu quando não escreves algo de que muitas, MUITAS pessoas gostem? Isso sempre me deixa abalada e sem palavras, aumenta minha pressão arterial, etc. Tudo que posso dizer é – se necessário perguntar –: você nunca saberá.

Para Cecil Dawkins, 3 de abril de 1959.

Flannery O'Connor, Spiritual Writings. New York: Orbis Books, 2011, p. 126-27.

sábado, 21 de março de 2015

Onde tudo está por fazer



Andrei Pleşu nasceu em Bucareste em 1948. Original disponível aqui.

Depois de estudar humanidades em Bucareste, Bonn e Heidelberg, tornou-se seguidor de Constantin Noica, a cujas conferências semiclandestinas assistiu em Păltiniş. Banido durante os últimos meses do regime comunista, foi convidado para unir-se ao governo depois da revolução de 1989 e foi Ministro da Cultura por dois anos; foi também, entre 1997 e 1999, Ministro das Relações Exteriores.
Andrei Pleşu é professor de filosofia na Universidade de Bucareste e escreve regularmente para Dilema Veche, publicação da qual é membro fundador. É também reitor do New Europe College, um instituto multidisciplinar de educação superior criado em 1994 e situado na Rua Plantelor, numa elegante casa de estilo neoclássico compartilhada com a embaixada suíça.

Alexandre Mirlesse encontrou-se com ele numa noite do verão de 2007.

Alexandre Mirlesse concluiu o internato na Notre Europe. É estudante da École Normal Supérieure em Paris.

Entrevista concedida no âmbito do programa de pesquisa sobre a identidade europeia da Notre Europe, no qual Alexandre Mirlesse tem viajado por toda a Europa.


Podemos falar de uma “identidade europeia”?

Pelo contrário, acho que é hora de dar uma pausa, de parar de falar sobre isso numa hipérbole atualmente favorável. Muito já se disse sobre a Europa, muito já se escreveu. O núcleo original já se alargou. Agora, aconteça o que acontecer, haverá uma ruptura antes do próximo alargamento, se este vier a acontecer. Sob essas circunstâncias, um exercício de silêncio pode ajudar. 
Ademais, o que se tem dito não é lá muito inventivo. Algumas palavras aparecem com demasiada frequência.


Então o senhor acha, como o escritor húngaro Peter Esterhazy, que as pessoas deveriam ser multadas por usar expressões como “retorno à Europa”, “casa comum”, “valores europeus”?

Ah! Já ouvi melhor: “Uma alma para a Europa”! Este era o tema de uma conferência organizada recentemente por alguns alemães. Eles gostam desse tipo de pieguice...
Mas, para ser bem sincero, não são só as palavras que são semelhantes, mas também os temas que continuam pipocando...


Quais?

Antes de prosseguirmos, deixe-me esclarecer uma coisa: esses temas per se são absolutamente honrosos. O que me espanta na verdade é a forma como são tratados.
Em primeiro lugar, claro, encontramos os famosos “valores”. Ah, valores! Cultura! Herança! Tais termos nunca deixam de adornar o fim dos discursos, mas não se pode evitar a sensação de que não são o cerne da matéria – antes, são um tipo de floreio, por assim dizer, o Rococó do discurso político. 
Recentemente, fiquei incomodado com uma declaração de Angela Merkel sobre este assunto: “A Europa não é uma comunidade cristã, a Europa é uma comunidade de valores”. Como se houvesse alguma contradição essencial entre cristianismo e valores! Se ela tivesse dito: “A Europa não é uma comunidade cristã, é uma comunidade ecumênica” ou “a Europa não é uma comunidade de loucos, é uma comunidade de valores”, haveria alguma lógica. Mas, tal como ela disse, a sentença sugere uma séria incompreensão do que sejam valores, cristianismo e Europa.


Mais algum?

Sim! O segundo tema requisitado: o bem repetido “O que o Leste Europeu pode oferecer à Europa Ocidental?”. Vocês se uniram a uma comunidade e nós, ocidentais, nos perguntamos – da maneira mais amigável possível, mas nem por isso com menos insistência – o que vocês podem trazer para nossa organização. E então todos concordam: valores! Tradições locais! Cultura!
Estou farto, cansado deste discurso. Se quiser saber minha opinião sobre valores e sobre o que o Leste tem para oferecer, eis aqui: trar-lhe-emos os nossos vícios!
Trar-lhe-emos certa lassidão histórica. Sim, estamos fatigados. Mas esta fadiga pode tornar-se uma virtude, pois a Europa esqueceu-se de como parecer cansada: ela é ativa demais, dinâmica demais, está sempre falando do futuro, fazendo planos. No entanto, a Europa é também um passado – e o Leste pode ser capaz de trazer-lhe certa distância de perspectiva, uma medida de tranquilidade, de silêncio analítico. Isso é tão necessário para a Europa quanto o dinamismo do cidadão ocidental.


É possível que essas duas Europas se compreendam reciprocamente?

Espero que sim. Neste momento, contudo, há problemas nessa reconciliação. E não acredito que alguém seja culpado por esta situação. As últimas décadas erigiram barreiras incríveis entre o Leste Europeu e a Europa Ocidental, uma assimetria na experiência, na mentalidade, na abertura. Podemos ser polidos uns com os outros, fingir progressos, mas um diálogo verdadeiro é quase impossível.
Permita-me um exemplo: Como vocês sabem, sob o regime comunista alguns escritores romenos exilados foram banidos na Romênia: Cioran e Eliade, por exemplo. Depois de 1989, finalmente os romenos puderam publicar e ler suas obras: houve uma torrente de traduções e de publicações desses escritores. Enquanto isso, no Ocidente havia uma grande preocupação com o fato de dois escritores que se haviam envolvido com a extrema-direita na juventude desfrutarem de um sucesso “suspeito”!
Consigo entender essas preocupações. Mas deve-se compreender que Cioran não foi banido pelos comunistas por ser um ex-membro da Guarda de Ferro, mas porque era demasiado pessimista. Nada tinha que ver com sua juventude direitista! Sob o comunismo, a tristeza era um vício político. Tinha-se de ser positivo, olhar para o futuro, para o Partido. Ora, Cioran era um trágico imperdoável. Quanto a Eliade, este foi banido porque se interessava por história da religião – num país ateu. O critério para o banimento não era mais político do que o critério para seu restabelecimento.
Entendo a sensibilidade e os receios ocidentais, mas espero que compreendam nossos critérios, que são completamente diferentes, porque a situação é completamente diferente.


Sua tese de doutorado, apresentada na Romênia 30 anos atrás e agora traduzida em francês, tem como título Pitoresco e Melancolia. Não é a “assimetria” que o senhor acabou de mencionar de fato bastante pitoresca? Não há um prazer em viajar, uma arte de viajar específica à Europa e mais facilmente acessível desde que as fronteiras desapareceram?

Pessoalmente, odeio viajar. Odeio lugares de viagem, aeroportos, estações. Sou lento e melancólico, não gosto de movimento, prefiro sentar tranquilo – é o meu lado “turco”. Claro, os médicos que cuidam de mim ficam horrorizados com minha natureza sedentária. Mas quando o homem que nos trouxe a corrida morreu aos 62 anos durante uma corrida, senti-me pessoalmente vingado!
Isso, entretanto, me permite responder a sua pergunta com uma citação de George Steiner, que, num texto muito bom sobre “a ideia de Europa”, escreve que a Europa é o único continente do mundo em que se pode viajar a pé. Não é possível em nenhum outro lugar. Brancuşi, por exemplo, saiu da Romênia e percorreu toda a distância entre sua cidade natal e Paris a pé, como um jovem que parte para conquistar a capital.
A Europa não foi feita para a velocidade.


Ulysse de Marsilac, um viajante francês que visitou Bucareste nos anos 1850, registrou em suas memórias: “Bucareste tem a dádiva rara de satisfazer tanto nosso desejo de civilização quanto de liberdade”. O senhor acha que a Romênia ainda é “exótica” para visitantes europeus?

Não, acho que não. Era assim até o início do século XX, quando Bucareste surpreendia o viajante europeu com o paradoxo da notável evidência de civilização e cultura na proximidade imediata do barbarismo.
Mas sua citação me faz lembrar de outro viajante, perambulando pela Grécia mais ou menos na mesma época. Ele relatou ter encontrado nas montanhas um tipo de monge barbudo e assustador, primitivo, quase bestial. Da boca do monstro saiu uma pergunta: “De onde vem o senhor?”. Confuso, praticamente em pânico, ele respondeu: “Venho da França”. E o monstro perguntou em francês: “Sim! E como vai monsieur Voltaire?”.
O contraste entre a aparência bestial e a referência a Voltaire deram-lhe a sensação de um completo exotismo. E o que é claramente típico do sudeste europeu: lá você encontra pessoas que têm um conhecimento extraordinariamente vasto e todos os complexos das pessoas de países pequenos.


Que complexos o senhor tem em mente?

Complexos de inferioridade. Como diz Cioran: “O orgulho de uma pessoa nascida numa cultura pequena está sempre ferido”.


Ainda há intelectuais da região “em suspenso”?

Certa vez, Mircea Eliade contou-me seus primeiros dias em Paris. Lá, encontrou-se com Georges Dumézil, que lhe perguntou qual era seu campo de estudos. Eliade respondeu: “a história das religiões”. Dumézil ficou surpreso: “Bem, é um campo muito amplo. Eu, por exemplo, me especializei nas fontes indoeuropeias da religião – e é mais do que suficiente”. Então continuaram a conversar. Duas horas depois, Dumézil exclamou: “Mas o senhor sabe tudo!”. E Eliade respondeu: “Senhor, é assim que deveria ser”.
Eis aí o complexo de inferioridade dos intelectuais do Leste. Eles se sentem obrigados a ser mais do que são, a saber mais do que é possível ou necessário para enfrentar a competição com a metrópole – essa característica tem grandes vantagens e também grandes desvantagens.


Quais?

A maior vantagem, no caso de uma mente rica e poderosa como a de Eliade, é a capacidade de atingir um conhecimento enciclopédico impressionante; a maior desvantagem, em seres menores, é um amadorismo cambaleante. Parece que você sabe tudo, está interessado em tudo; mas não há profissionalismo. Você toca uma música alegre que acalma o ouvido. Esse diletantismo pode ser bem estimado, mas carece de profundidade, estabilidade, Gründlichkeit.
Constantin Noica era amigo de Cioran e de Eliade; ele poderia ter ido para o exílio como eles no final da década de 1940, mas não o fez. Quando lhe perguntamos por que não, no fim de sua vida, Noica respondeu: “Se eu tivesse ido para o Ocidente como professor de filosofia, teria de encontrar algum detalhe irrisório na história da filosofia em que pudesse me especializar, pois tudo já foi tratado lá. Eu teria de devotar minha vida a alguma observação irrelevante de Aristóteles; ao passo que aqui, onde tudo está por fazer, basta que leia Aristóteles”.
O prazer, a liberdade impura de ler Platão, “caminhar em avenidas largas”, como ele disse, e não apenas em ruas estreitas – essa tem sido a grande oportunidade de minha vida intelectual. Mas é uma faca de dois gumes: a sensação de mobilidade, de um lado, e a impressão de estar à margem, de outro.


E qual era o seu propósito quando criou o New Europe College? O senhor encontrou um meio-termo entre a especialização e a abordagem enciclopédica?

Em verdade, eu queria criar um lugar para a normalização da vida intelectual. Antes de 1989, só se podia conduzir pesquisas sob permissão do Estado; não se podia seguir com seus próprios projetos, não havia tratamento transdisciplinar. Eu queria que o NEC fosse o lugar em que os membros estivessem livres para perseguir seus próprios projetos – sujeitos a uma única regra compulsória: encontros semanais para a troca de ideias.


É isso que faz do seu College europeu?

Sim. Acho que o perigo para a Europa contemporânea é o extraordinário isolamento das diferentes faculdades – ou sua homogeneização em alguma vaga ideologia tecnológica.
Trocas de ideias estão no coração da existência do College: mantemos um seminário semanal no qual especialistas de diferentes áreas – teólogos, arqueólogos, cientistas políticos, estudiosos das humanidades no sentido mais abrangente possível – se encontram e tratam de assuntos relevantes para todos em seu próprios ramos, de modo “interdisciplinar”, como se diz hoje. Isso força todos a olharem para além de seu próprio campo, para além das próprias obsessões ou prioridades científicas e a voltar sua atenção para outras disciplinas, outros projetos, outras ideias.


Qual seria, para o senhor, a educação ideal para um europeu?

Para responder a isso, tenho de citar Noica de novo. Ele costumava dizer: Seria crucial voltar à escola novamente entre os 30 e 35 anos de idade, porque quando se vai à escola, você é obrigado a estudar química, e geografia, e você fica entediado. Reestudar tais matérias depois de adulto, ler de novo um manual de geografia, é casar o conhecimento enciclopédico com a força da maturidade. Isso daria à Europa amplitude intelectual e capacitaria os europeus a recuperar sua abertura e tolerância – esses famosos “valores” que até agora não passam de retórica.
Eu sugeriria, portanto, que nossas instituições organizassem nas cidades europeias aulas públicas abertas a todos, por dois ou três anos, em todos os campos. Essa abertura de mente de todos os frequentadores – utópica o quanto seja – tornar-se-ia uma fonte de sabedoria e de ar fresco.


Do pitoresco à melancolia: o senhor acha que este humor é tipicamente europeu?

Talvez. Confesso que seria capaz de dizer que a melancolia é o humor tipicamente europeu, mas não diria que o humor típico da América ou da África é a melancolia. Associo-a mais estreitamente à Mitteleuropa, que, com sua mistura de povos e sua história colorida, é o território natal da melancolia.
Melancolia é o rosto da Europa pós-imperial. A Europa nasceu como epifenômeno de um império, o Império Romano. Desde então, tem havido períodos pós-imperiais na Europa. São períodos, como o alexandrinismo, em que a exaustão dos valores é acompanhada de uma sensação de vazio. É a experiência pós-clássica que dá a algumas partes da Europa o matiz melancólico.


O senhor mencionou a Mitteleuropa; contra ela, Cioran escreveu: “só há três tipos de tristeza: a russa, a húngara e a portuguesa”.

Não entenda isso de modo literal. Mas concordo que há uma melancolia específica para cada povo e que algumas são mais intensas do que outras. Os povos, como os homens, não são igualmente melancólicos.


Por outro lado, alguns povos têm maior senso de humor que outros?

Há humor por toda parte na Europa – mas aqui ele assume um tom particular nascido da experiência histórica.


O “haz de necaz” [rir da própria desgraça]?

É isso. Ou, como se diz nas comunidades judaicas, trotzdem lachen: rir, apesar de tudo. É riso do gueto: a situação é trágica, mas vamos rir mesmo assim.
Só mais uma palavra sobre a melancolia: aquilo de que a União Europeia carece é precisamente isso: alguma forma de melancolia. Hoje, toda a Europa olha para a frente: elabora um modelo e então corre a toda a velociade para alcançá-lo. Foi isso que levou Vladimir Bukowski a dizer: Agora, em vez da URSS, temos a UE; em vez de Moscou, Bruxelas; e ainda o mesmo discurso: confiança, otimismo e determinação rumo a um futuro dourado.


O senhor concorda com ele?
É claro, essa afirmação é perfeita. Mas continua o caso de que o discuso da UE, o que a Comissão Europeia diz, festivo e eficaz o quanto seja, não tem tempo para reflexão, melancolia.
Quanto a este assunto, quero incluir outra palavra a favor da Europa do Leste e sua possível contribuição. Há uma passagem misteriosa na segunda epístola de Paulo aos Tessalonicenses, citada por Carl Schmitt e estudada pelo romeno Theodore Paleologue.
Segundo esta passagem, há um momento, à medida que o Apocalipse se aproxima, em que a velocidade da evolução é acelerada. E quando o fim do mundo está próximo, algo ou alguém é necessário para retardar o índice da queda, resistir um pouco a este curso inevitável. E este algo é mencionado por Paulo como catechon (κατέχον): aquele que restringe, que retarda, que resiste, que detém.
De um ponto de vista racionalista, os tipos nesta categoria não são atraentes: não são progressistas, mas, antes, conservadores: de certa forma, ficam para trás. Mas em momentos em que a história está acelerada, um catechon é útil. E acho que a Europa Oriental será capaz de exercer essa função, num mundo em que tudo se move numa direção clara, de forma aparentemente dinâmica e cada vez mais vital: talvez o ritmo daquela parte da Europa esteja prestes a retardar esta evolução, mantendo a carroça atrás dos cavalos.


A pesquisa na Europa tem um campo privilegiado?

Acredito que a Europa é essencialmente e originalmente o espaço mediterrâneo. Santo Agostinho nasceu na África do Norte antes de tornar-se um dos pais fundadores do cristianismo na Europa!
Tudo que acontece no Magrebe é nutrido pela mentalidade Europeia. A Europa irradia mas também ingere qualidades mediterrâneas que se espalham pelo Magrebe completamente com sua cozinha. O Norte da África também é Europeu. É onde culturas e tradições se misturam: eles ocuparam uma posição de destaque no nascimento da Europa e bem podem sustentar seu futuro.
Foi assim que a Europa nasceu: o império romano estava em ruínas e toda a Europa inundada de bárbaros, dando forma a algo totalmente novo. A Europa é a combinação das tradições que sobreviveram à queda de Roma e da vitalidade bárbara obscura e histérica das invasões nômades. A história pode repetir-se.


Onde o senhor procura traços da herança bárbara na Europa contemporânea?

Na tipologia, no temperamento – com seus pontos positivos e negativos. Na Europa, ainda há uma jovialidade que é bárbara, certa ausência de rotina – e também certo grau de resistência a instituições, sobretudo no Leste Europeu.


Todavia, a Europa Unida se expressa, em primeiro lugar e acima de tudo, nas instituições comuns...

Certo, mas os bárbaros do leste acham difícil ajustar-se a elas. No Leste, as pessoas tendem a ser autônomas, as instituições não têm prestígio. O Estado, as instituições, ambos são suspeitos. Para sobreviver é aconselhável evitá-los. Este é um dos problemas de nossa integração na União Europeia. 
Para concluir, gostaria de contar uma anedota sobre bárbaros e a Europa.
Tive um amigo pintor que era um fiel convicto. Numa tarde bem quente, ele tinha de ir a uma igreja – não só para orar, mas para aproveitar um pouco do clima ameno. Lá dentro, não havia ninguém, exceto o padre, sem camisa, sentado à mesa diante do altar com uma garrafa de vinho. Meu amigo, embora fosse amante do vinho, ficou um pouco contrariado. “Padre, não compreendo. Venho à igreja com a intenção piedosa de orar e o que encontro? O sacerdote despido e bebendo vinho diante do altar!”
Esta era a reação europeia: meu amigo queria respeito pela instituição, observância às regras.
E o padre respondeu: “Meu filho, esta é a casa de Deus. Sinto-me em casa aqui – e procuro agir de acordo. Se não gostas, sai!”
Esta foi a resposta bárbara: o sacerdote não se intimidava com a solenidade ou com o rigor institucional. 
Esse traço tem algo completamente sublime; traz alguma jovialidade à relação com Deus e com a instituição – mas também traz sementes de caos.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sobre o ensino de literatura



Acho que todos se aproximam da literatura de acordo com seu interesse particular – o médico procura a doença, o ministro procura um sermão, o pobre procura dinheiro, e o rico procura justificação; se encontram o que desejam, ou pelo menos o que podem reconhecer, então julgam a obra de ficção de categoria superior.

***

É próprio da ficção encarnar o mistério por meio dos costumes, e o mistério é um grande estorvo para a mentalidade moderna. Perto do fim do século, Henry James escreveu que a mulher jovem do futuro, embora pudesse ser levada para passear numa máquina voadora, nada saberia sobre mistério e costumes. James não tinha nenhuma razão para restringir a previsão a um dos sexos; por outro lado, ninguém pode discordar dele. O mistério de que ele falava é o mistério de nosso lugar na terra, e os costumes são aquelas convenções que, nas mãos do artista, revelam o mistério central.


***

Não sei se considero os objetivos do professor de literatura elevados demais ou baixos demais quando sugiro que, ao menos em parte, sua missão é mudar a cara da lista dos mais vendidos.

Flannery O’Connor, “The Teaching of Literature”. In: Mystery and Manners (Eis aí a razão do título do livro)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Diário de oração



Quero amar a Deus de todo o coração. Ao mesmo tempo, desejo coisas que parecem contrárias a isso – quero ser uma exímia escritora. Qualquer sucesso tenderá a subir à minha cabeça – mesmo que inconscientemente. Se eu chegar a ser uma exímia escritora, não será porque sou uma escritora excelente, mas porque Deus me deu o crédito pelas poucas coisas que ele gentilmente escreveu através de mim.


Se começar com a alma, talvez os dons temporais que pretendo exercer tenham sua chance; se não tiverem, já terei o melhor em minhas mãos, a única coisa realmente necessária. Deus há de estar em toda a minha obra. Andei lendo Bernanos. É tão maravilhoso. Será que um dia saberei alguma coisa?

Flannery O’Connor, Diário de Oração

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A Igreja e o escritor de ficção


Tradução de “The Church and the Fiction Writer”,
artigo publicado em 30/03/1957 na America Magazine
Nota do editor
Quando “A Igreja e o Escritor de Ficção” veio a público em 30 de março de 1957, nos EUA, a georgiana Flannery O’Connor tinha acabado de completar 32 anos. Na época, seu romanceSangue Sábio(1952) e seus contos, alguns dos quais figuraram na Harper’s Bazaar, na The Kenyon Reviewna The Sewanee Review na Shenandoah (e que acabaram sendo publicados em A Good Man Is Hard to Find and Other Stories [1955]), foram aclamados nacionalmente, embora nem todos os críticos pudessem situar seu gênio com alguma precisão. Granville Hicks, por exemplo, escreveu em The New Leader, a respeito de A Good Man Is Hard to Find: “a Sra. O’Connor considera a vida humana vil e brutal e faz este julgamento desde o ponto de vista da ortodoxia cristã. Mas não é necessário acreditar no pecado original para ser abalado por suas histórias”.
Não surpreende que, depois de um de seus amigos sacerdotes, James McCown, S. J.,tê-la recomendado a Harold C. Gardiner, S. J., o editor literário de America Magazine, O’Connor enviasse um ensaio esclarecendo sua visão acerca da relação entre um escritor de ficção professamente católico e os princípios da Igreja Católica. Sua prosa tensa, sensível tanto ao mistério da presença de Deus no mundo quanto às obrigações de um escritor diante de sua tarefa, afirma que a fé de um escritor não necessariamente o limita, mas confere uma “dimensão acrescentada” a seu trabalho criativo, que deve ser julgado “pela veracidade e integridade dos eventos naturais apresentados”. Em seu ensaio, O’Connor mediu cuidadosamente sua argumentação e seu modo de expressão, e é compreensível que tenha se incomodado com o fato de o Padre Gardiner ter alterado um de seus parágrafos, o qual inserimos no texto abaixo entre colchetes. Publicamos este parágrafo original com nossas tardias desculpas.
Patrick H. Samway

A IGREJA E O ESCRITOR DE FICÇÃO

A pergunta a respeito de que efeito o dogma católico exerce sobre o escritor de ficção que é católico nem sempre pode ser respondida indicando-se a presença de Graham Greene entre nós. Não se deve pensar apenas nos dons que entraram nos trilhos, mas também nos que se desviaram pelo caminho e naqueles que nunca se desenvolveram. Algum tempo atrás, os editores da Four Quarters, uma revista trimestral publicada pelo La Salle College, na Filadélfia, publicaram um encarte especial sobre a morte dos escritores católicos entre os graduados em faculdades católicas. Em resposta, apareceram cartas de escritores e críticos, católicos e não católicos.

Essa correspondência variava desde a afirmação de Philip Wylie, segundo a qual “um católico, se for devoto, isto é, crente na autoridade da Igreja, é também alguém que passou por lavagem cerebral, quer perceba, quer não” (e consequentemente não tem a liberdade necessária para ser um escritor criativo de primeira linha), até à bastante repetida explicação de que o católico neste país padece de uma estética paroquiana e de um isolamento cultural. Uns poucos sustentavam que a situação entre católicos não era pior que entre outros grupos, uma vez que é sempre difícil encontrar mentes criativas; outros tantos sustentavam que nosso tempo é que é o responsável.

O corpo docente de uma universidade há de considerar que esse é um problema educacional; o escritor católico há de considerá-lo um problema pessoal. Quer seja graduado por uma faculdade católica, quer não, se entende a Igreja como esta entende a si mesma, o escritor deve avaliar o que esta lhe exige e se ela restringe sua liberdade. Sendo o material e o método da ficção o que são, o problema pode parecer maior para o escritor de ficção do que para qualquer outro.

Para o escritor de ficção tudo é posto à prova no olho, um órgão que acaba envolvendo a personalidade inteira e tanto do mundo quanto estiver ao seu alcance. O monsenhor Romano Guardini escreveu que as raízes do olho estão no coração. Em todo caso, para o católico, aquelas raízes se estendem até às profundezas do mistério que divide o mundo moderno – uma parte tenta eliminar o mistério, enquanto a outra tenta redescobri-lo em disciplinas pessoalmente menos exigentes que a religião.

O que o Sr. Wylie sustenta é que o escritor católico, porque crê em certo número definido de mistérios, não pode, pela natureza das coisas, enxergar com precisão; e essa afirmação não é, com efeito, muito diferente daquela feita por católicos que declaram que, por mais que o escritor católico veja, há certas coisas que ele não deve ver, nem com precisão nem de jeito nenhum. Estes são os católicos vítimas da estética paroquiana e do isolamento cultural; e é interessante encontrá-los compartilhando, ainda que por uma fração de segundos, a mesma base intelectual do Sr. Wylie.

Geralmente se supõe, e não menos entre católicos, que o católico que escreve ficção tem de usar sua ficção para provar a verdade de sua fé ou, pelo menos, provar a existência do sobrenatural. Ele pode fazê-lo. Ninguém é capaz de saber ao certo seus motivos, exceto na medida em que estes se insinuam na obra terminada; mas quando a obra terminada sugere que as ações pertinentes foram fraudulentamente manipuladas, omitidas ou abrandadas, quaisquer que tenham sido seus propósitos iniciais, eles já terão fracassado. O que o ficcionista descobrirá, se é que descobrirá alguma coisa, é que ele mesmo não pode mudar ou moldar a realidade em nome de uma verdade abstrata. O escritor aprende, talvez mais rapidamente que o leitor, a ser humilde diante daquilo que é. Aquilo que é é tudo o que ele possui; o concreto é o seu meio; e ele perceberá, por fim, que a ficção pode transcender suas limitações somente se submeter-se a elas.



A vida do mistério


Henry James dizia que a moralidade de uma peça de ficção depende da quantidade de “vida sentida” que há nela. O escritor católico, na medida em que tem a mente da Igreja, sentirá a vida desde a perspectiva do mistério cristão central; uma vida pela qual, com todo o seu horror, Deus achou que valia a pena morrer.

Para a mente moderna, como representada pelo Sr. Wylie, essa é uma visão deformada que “tem pouca ou nenhuma relação com a verdade tal como a conhecemos hoje”. O católico que não escreve para um círculo limitado de irmãos católicos levará em conta, muito provavelmente, uma vez que essa é a sua visão, que está escrevendo para um público hostil, e se preocupará, mais do que nunca, com que sua obra se sustente por suas próprias pernas e seja completa, autossuficiente e impecável por seu próprio mérito. Quando as pessoas me disseram que por ser católica não podia ser artista, fui obrigada a responder com pesar, dizendo: justamente porque sou católica é que não posso me dar ao luxo de ser menos que uma artista.

As limitações que qualquer escritor impõe à sua obra crescerão a partir das necessidades que se encontram no próprio material, e essas restrições geralmente serão mais rigorosas do que as que qualquer religião poderia impor. Parte da complexidade do problema para o ficcionista católico será a presença da Graça do modo como esta aparece na natureza; o que importa para ele aqui é que sua fé não se separe de seu senso dramático e de sua visão de como são as coisas. Entretanto, nos dias de hoje, ninguém parece mais ansioso em separar do que aqueles católicos que exigem que o escritor limite, no plano natural, o que ele se permite ver.



Natureza e Graça na ficção


Se se pudesse chegar ao leitor católico médio por meio da inundação de cartas ao editor e outros lugares onde ele às vezes se revela, encontraríamos algo próximo de um maniqueu. Ao separar tanto quanto possível natureza e graça, ele reduz sua concepção do sobrenatural a um clichê piedoso e só é capaz de reconhecer a natureza na literatura de duas formas: a sentimental e a obscena. Parece preferir a primeira, embora tenha mais autoridade na segunda, mas a semelhança entre as duas geralmente lhe escapa. Ele se esquece de que o sentimentalismo é um excesso, uma distorção do sentimento, em geral na direção de uma ênfase exagerada na inocência; e essa inocência, onde quer que seja enfatizada de modo excessivo na condição humana normal, tende, por alguma lei natural, a tornar-se o seu oposto.

Perdemos nossa inocência na Queda de nossos primeiros pais, e nosso retorno a ela se dá por meio da Redenção que nos foi trazida pela morte de Cristo e por nossa lenta participação nela. O sentimentalismo é um salto deste processo em sua realidade concreta e uma chegada precoce a um falso estado de inocência, que vigorosamente sugere seu oposto. A pornografia, por outro lado, é essencialmente sentimental, pois omite a conexão entre o sexo e seus propósitos inerentes, desconecta-o de seu sentido na vida e faz dele simplesmente um fim em si mesmo.

Tem-se feito muitas queixas bem fundamentadas a respeito da literatura religiosa, no sentido de que ela tende a minimizar a importância e a dignidade da vida aqui e agora em favor da vida no outro mundo ou em favor de manifestações miraculosas da graça. Quando é produzida de acordo com sua natureza, a ficção deve reforçar nosso senso do sobrenatural fundamentando-o na realidade concreta observável. Se o escritor usar seus olhos na verdadeira segurança de sua fé, ele será obrigado a usá-los honestamente, e o senso do mistério e a aceitação dele crescerão. Olhar para o pior dos males não será para ele nada mais do que um ato de confiança em Deus; mas o que é uma coisa para o escritor pode ser outra para leitor. Aquilo que leva o escritor à salvação pode levar o leitor ao pecado, e o escritor católico que vê essa possibilidade olha diretamente o rosto da Medusa e vira pedra.

Já alguém que tenha enfrentado o problema está equipado com o conselho de Mauriac: “purifique a fonte”. E, junto com tal conselho, ele toma consciência de que, enquanto tenta fazer isso, tem de continuar escrevendo. Também fica ciente de fontes que, relativamente falando, parecem bastante puras, mas podem dar origem a obras que escandalizam. O escritor pode sentir que é igualmente pecaminoso escandalizar instruídos e ignorantes. No fim, terá de parar de escrever ou limitar-se aos problemas próprios daquilo que está criando. É a pessoa que não pode seguir nenhuma dessas direções que se torna a vítima, não dos dogmas da Igreja, mas de uma falsa concepção das exigências que esta lhe faz.

[A tarefa de proteger as almas da literatura perigosa pertence propriamente à Igreja. Nem toda ficção, mesmo quando atende às exigências da arte, é adequada para o consumo de todos, e se em algum caso a Igreja considera conveniente proibir o fiel de ler uma obra sem permissão, o autor, se for católico, será grato pela disposição da Igreja de prestar-lhe este serviço. Isso quer dizer que ele pode limitar-se às exigências da arte.]

O autor deve, é claro, perceber que é sua função, não menos que da Igreja, proteger as almas da literatura perigosa. Mas no esforço para viver de acordo com as exigências legítimas de sua rotina, ele saberá que nem toda ficção é adequada para o consumo de todos. Se em alguns casos a Igreja julgar conveniente proibir ao fiel a leitura de uma obra sem permissão, o autor católico será grato por ter sido lembrado do senso de responsabilidade.1

O fato é que para muitos escritores parece mais fácil supor uma responsabilidade universal pelas almas do que produzir uma obra de arte; e considera-se melhor salvar o mundo do que salvar a obra. Essa visão provavelmente deve tanto ao romantismo quanto à piedade, mas o escritor não estará propenso a acolhê-la a menos que a tenham inculcado através de uma lastimável educação ou a menos que escrever não seja sua vocação principal. Que se lhe tenham inculcado isso pela atmosfera geral da piedade católica neste país é difícil de negar, e,ainda que não seja a responsável por todos os talentos assassinados ao longo do caminho, essa atmosfera é pelo menos geral o suficiente para dar um ar de credibilidade à concepção que o Sr. Wylie tem a respeito do que a crença num dogma faz com a mente criativa.



A dimensão acrescentada


Uma crença num dogma permanente não pode determinar o que acontece na vida do crente ou cegá-lo para essas coisas. Ela sem dúvida acrescentará à observação do escritor uma dimensão que muitos não podem, conscientemente, reconhecer; mas,enquanto o que puderem reconhecer estiver presente na obra, não podem alegar que qualquer liberdade tenha sido negada ao escritor. Uma coisa é uma dimensão subtraída; outra coisa é uma dimensão acrescentada, e o que o escritor e o leitor católicos devem lembrar é que a realidade da dimensão acrescentada será julgada numa obra de ficção pela veracidade e integridade no nível literal dos eventos naturais apresentados. Se espera revelar mistérios, o escritor católico terá de fazê-lo por meio de uma descrição sincera do que vê a partir de onde ele se encontra. Não se pode exigir dele uma visão puramente afirmativa sem limitar sua liberdade de observar o que o homem fez com as coisas de Deus.

Se pretendemos incentivar ficcionistas católicos, devemos convencer aqueles que seguem a Igreja de que esta não lhes restringe a liberdade de ser artistas, antes a garante (as restrições da arte são outra questão). Convencê-los disso requer, talvez mais que qualquer outra coisa, um corpo de leitores católicos capazes de reconhecer algo na ficção além das passagens que consideram obscenas.



Inteligência necessária


É bastante popular a ideia de que qualquer um que pode ler uma lista telefônica pode ler um conto ou um romance, e é mais do que comum encontrar a seguinte postura entre católicos: uma vez que temos a posse da verdade na Igreja, podemos usar essa verdade diretamente como um instrumento para julgar qualquer disciplina a qualquer momento sem levar em conta a natureza da disciplina propriamente dita. Leitores católicos constantemente ficam ofendidos e escandalizados por romances para cuja leitura, em primeiro lugar, não têm o mínimo preparo indispensável – e frequentemente essas obras estão permeadas por um espírito cristão.

É quando a fé individual é fraca, não quando é forte, que o leitor temerá uma representação ficcional honesta da vida; quando há uma tendência a compartimentalizar o espiritual e a fazê-lo residente apenas em certo tipo de vida, o sentido do sobrenatural está prestes a se perder. A ficção, feita de acordo com suas próprias leis, é um antídoto a tal tendência, pois renova nosso conhecimento de que vivemos no mistério do qual extraímos nossas abstrações. O ficcionista católico, enquanto ficcionista, buscará em primeiro lugar a vontade de Deus nas leis e limitações de sua arte e esperará que, se as obedecer, as demais coisas sejam acrescentadas à sua obra. A mais bem-aventurada dessas (e a única que ele pode esperar) será a satisfação do leitor católico.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Caridade intelectual

Por Ernest Hello
Tradução de William Campos da Cruz (a partir da edição americana)



Sempre que há uma necessidade de caridade material, podem-se encontrar pessoas prontas a ajudar. Da mesma forma, quando há necessidade de ensino das verdades fundamentais da religião às nações imersas na ignorância, invariavelmente alguns heróis se dispõem a devotar a própria vida a essa tarefa heroica. Mas quero falar agora de um tipo de caridade geralmente esquecido – a caridade intelectual. 

O homem tem milhares de necessidades. Ele pode ser definido como uma criatura que tem necessidades. Nem só de pão vive o homem; vive também do dom divino da fala. Alguns homens têm mais necessidades peculiares e excepcionais que outros – necessitam de Luz. Outros ainda precisam que as ideias lhes venham vestidas de palavras nobres. Não só a satisfação do intelecto, mas a própria vida de sua alma (e talvez eu possa acrescentar, de seu corpo) parece depender da Verdade apresentada a ele de tal forma que possa desejá-la, aceitá-la, assimilá-la. Esses homens pertencem a uma categoria especial de pobres, pois têm uma necessidade a mais que a maioria dos homens, uma necessidade que raramente é atendida. São, de fato, pobres, e a caridade que se lhes cabe é a mais rara de todas. O Evangelho fala em muitas passagens dos que têm fome e sede, dando-nos claramente a entender que essas expressões são usadas em seu sentido mais amplo e abrangente. Ter fome e sede de justiça está listado entre as bem-aventuranças. Mas os homens curiosamente parecem dispostos a restringir o sentido da fome e da sede que têm como missão tentar aliviar. Quanto mais material uma necessidade é, mais piedade ela desperta. Por outro lado, quanto mais alto é o tipo da necessidade, menos compaixão se sente por ela. Muitos homens que nem sequer sonhariam deixar alguém morrer de fome, no sentido material do termo, não receiam cometer o mesmo ato num sentido intelectual. 

Ora, a palavra escrita pode ser uma grande caridade, e sua difusão, sempre que é bela e verdadeira, é um dos atos de caridade mais adequados ao nosso tempo. Em muitas almas, a fome e a sede existentes só podem ser saciadas por palavras impressas. Entre esses leitores ávidos e o escritor (que pode ser igualmente ávido) pode estabelecer-se uma corrente de caridade sublime, em que todos dão e todos recebem. O leitor dá uma imensa contribuição ao escritor, e o próprio escritor não sabe o quanto recebe de seu leitor. “Compreender é igualar-se”, diz Raphael. Ninguém pode sobrestimar a importância dos periódicos hoje – seus direitos, deveres, responsabilidades, bem como as obrigações que temos perante eles, pois os periódicos distribuem o pão do intelecto. Com frequência chegam a lugares onde os livros não chegam. Educam a mente dos homens. Sua influência é muito profunda, porque para a maioria das pessoas é imperceptível. Seu ensino é o mais eficaz, porque não demonstra ensinar. Não é pedante. Não assume ares professorais. O Evangelho nos narra as palavras com que a raça humana será julgada no Último Dia. Todos julgamos compreender essas palavras, surpreendentes em sua simplicidade e profundidade. Mas como muitos de nós realmente as compreendemos? 

“Tive fome, e me destes de comer.” 

“Tive fome, e não me destes de comer.” 

Que estranhas formas, ignoradas e insuspeitas, assumirão esta fome e esta sede, no Dia do Juízo! Que surpresa não causarão aos homens! Uma necessidade que foi completamente ignorada, uma necessidade da qual riram sobre a terra, uma necessidade da alma humana que, a olhos desdenhosos e malignos, parece mero capricho de repente se tornará de importância capital. E a Eternidade – Eternidade, com a dupla perspectiva da alegria sem fim e do desespero desesperado – pode depender da resposta que um homem deu a um apelo nos dias de sua vida sobre a terra. 

Chegará a hora em que quem quer que tenha contribuído, positiva ou negativamente, por ação ou por omissão, para satisfazer ou deixar de satisfazer as necessidades de uma alma, será surpreendido pelas consequências do que pode ter-lhe parecido uma decisão desimportante. 

“Senhor”, ele dirá, “quando foi que tiveste sede e não lhe dei de beber?” E então se lembrará e ficará sem resposta. 

Direis, talvez, que esta é uma forma muito elevada de considerar a Imprensa, sua missão, e a nossa obrigação para com ela. 

Sem dúvida. É elevada porque é verdadeira. 

Abra o grande Livro em que se encontram os fundamentos do Direito e as fontes da Luz, e o qual é a primeira palavra que nos salta aos olhos? Caridade. 

Sobretudo nos Evangelhos, a caridade brilha como uma chama diante de nossos olhos. O bom samaritano, o filho pródigo, a ovelha perdida, a moeda perdida, a lista de exemplos não tem fim. Para chegar ao fim, eu teria de citar tudo. Mas, para citar tudo que se refere à caridade nos Evangelhos, tenho de transcrever os quatro evangelhos na íntegra, da primeira à última linha. Pois mesmo onde a caridade não é nominalmente mencionada, ela está subentendida. Os Evangelhos sempre estão tratando de caridade, porque estão sempre tratando de Deus, e São João nos diz que Deus é caridade. 

A caridade está tão profundamente ligada ao mundo do pensamento que é difícil até imaginar um sistema de religião que não a prescreva. Doutrinas errôneas distorcem seu verdadeiro sentido, e até mudam sua natureza; mas ainda que a adotem, a preguem, edificam sobre ela como sobre um fundamento necessário. Diga o que os homens querem, e eles defenderão a caridade. Podem-se imaginar as coisas mais loucas, mais monstruosas, mas não se pode imaginar uma exortação como a seguinte: 

“Queridos filhos, não vos ameis uns aos outros. Que cada um pense apenas em si mesmo. Pobre daquele que ama seu irmão! Pobre daquele que se lembra do pobre!” 

Não! Tais princípios nunca foram ensinados, e nunca serão. Isso, então, é certo: Caridade é o fundamento de toda doutrina que tem alguma relação com a raça humana. Parece evidente, portanto, que todo homem que cuidadosamente ouve sua consciência é, acima de tudo, cuidadoso na prática da caridade. E não só na teoria. E não só na prática. 

Na vida de muitos homens, atentos a sua consciência e desejosos de não feri-la, a caridade, que ocupa o primeiro lugar na teoria, ocupa o último na prática. Este fenômeno é tão extraordinário que me parece necessário declará-lo com toda clareza, pois, para curar um mal, temos primeiro de encará-lo. 

Todo homem que se esforça para obedecer à consciência é muito cuidadoso, e algumas vezes muito escrupuloso, em certos pontos de moralidade e conduta. Mas seu cuidado e sua solicitude nem sempre alcançam a prática da caridade. Faço uma exceção, claro, àqueles que devemos tratar como excepcionais. Os Santos – cujas vidas formam algo como uma continuação prática dos Evangelhos, e aqueles que buscam de todo coração seguir nos passos dos Santos – põem a caridade antes de todas as coisas em seu pensamento e em sua vida. Mas não estou falando de Santos aqui, ou daqueles que em algum grau se assemelham a eles. Estou falando de certos homens que estão se esforçando para ser conscienciosos. 

E ainda assim, direis, há uma grande quantidade de obras de caridade atualmente. Muitas coisas são feitas pelos pobres. 

Certamente, muita coisa é feita para os pobres oficiais – para aqueles que são oficialmente rotulados e assistidos como pobres. Aqueles que ocupam no mundo a posição de homens pobres não são esquecidos. 

Mas não estou falando destes. Não estou falando das obras oficiais de caridade. Estou falando da própria caridade. Estou falando da caridade aplicada a todos os tipos de necessidade, e não faço exceção às necessidades da alma. Estou falando daquela caridade profunda, interior, que se pergunta na presença de outra alma, de outra mente: “Quais são suas necessidades? O que posso fazer para ajudar a satisfazê-las?” 

Aqui, por exemplo, está um homem que pensa, que medita, o qual precisa dar aos outros os frutos de sua vida interior. E outros homens precisam receber esses frutos. O que posso fazer pelos homens que têm necessidade de dar? O que posso fazer por aqueles que têm necessidade de receber o que o primeiro deseja dar? Se eu ajudar o homem que está na posição de dar, ajudo ao mesmo tempo o homem que tem necessidade de receber. O benefício é duplo. 

A caridade de que falo é aquela caridade intelectual e inteligente que brota da alma e procura outra alma. Por que esta caridade sublime é negligenciada por muitas pessoas conscienciosas? Porque essas pessoas conscienciosas temem fazer o mal, mas não temem omitir-se de fazer o bem. Temem pecar por ação, mas não temem pecar por omissão. 

Devemos amar de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento. Não sei se essas pessoas amam de todo o coração e de toda a sua alma, embora possa admitir que sim, se preferirdes. Mas não amam com todo o entendimento. A mente é aquilo que busca, que especula, que discerne. É a espada da caridade. 

É a mente que separa o bom do mau; é a mente que vê a diferença entre um homem e outro. É a mente que examina e explora, que sonda as profundezas ocultas das coisas. Amar com todo o entendimento é acrescentar a justiça à caridade de alguém. Amar com todo o entendimento é perdoar imperfeições supérfluas, e vincular-se à nobreza oculta por trás delas. Amar com o entendimento – com todo o entendimento – é compreender as necessidades da mente do outro, da alma do outro. 

Amar com todo o entendimento é detectar, onde quer que exista, a fome e a sede do intelecto, e correr para aliviá-las. Amar com todo o entendimento é ir em auxílio da mente, onde quer que viva, onde quer que sofra. 

“Bem-aventurado aquele que atende ao pobre e ao necessitado”, diz a Sagrada Escritura. 

Ora, há muitos tipos de pobreza. 

Repito as palavras sagradas: 

“Tive fome, e não me destes de comer.” 

Quem ama com todo o entendimento é aquele que tem sido capaz de sentir as necessidades dos outros. 

Traduzido do inglês por William Campos da Cruz. In: Life, Science and Art: Being Leaves from Ernest Hello. London, R. & T. Washbourne, 1912. Disponível aqui.