domingo, 22 de junho de 2014

Romancista e crente

Por Flannery O'Connor

Kevin Christy, aqui.


Como sou romancista, e não filósofa ou teóloga, tenho de entrar nessa discussão num nível muito mais baixo e seguir por um caminho muito mais estreito do que o que me seria mais desejável. Para os fins deste simpósio, foi sugerido que concebêssemos a religião em sentido lato, como uma expressão da preocupação última do homem, em vez de identificá-la com o judaísmo, com o cristianismo institucional ou com “ir à igreja”.

Vejo a utilidade disso. É uma tentativa de ampliar a noção do que é uma religião e de como o religioso precisa ser exprimível na arte de nosso tempo. Mas sempre há o perigo de, ao tentar ampliar as ideias dos estudantes, acabemos por evaporá-las, e acho que nada neste mundo se presta à rápida evaporação quanto as preocupações religiosas.

Como escritora, a maior parte do meu trabalho é tornar tudo, mesmo uma preocupação crucial, o mais sólido, concreto e específico possível. O escritor começa seu trabalho no ponto em que o conhecimento começa – com os sentidos; ele trabalha com as limitações da matéria e, a menos que esteja escrevendo fantasia, tem de permanecer dentro das possibilidades concretas de sua cultura. Ele está vinculado a seu passado particular e às instituições e tradições que seu passado legou a sua sociedade. No ocidente, fomos formados pela tradição judaico-cristã. Estamos ligados a ela por fios que frequentemente podem ser invisíveis, mas que, ainda assim, estão lá. Essa tradição moldou o nosso secularismo; formou inclusive o molde do ateísmo moderno. De minha parte, devo permanecer bem dentro da tradição judaico-cristã. Tenho de falar, sem meias palavras, da Igreja, mesmo quando a igreja está ausente; de Cristo, mesmo quando ele não é reconhecido.

Quando alguém fala como cientista, creio que seja possível desconsiderar grande parte da personalidade e falar simplesmente como cientista; mas quando alguém fala como romancista, precisa falar da mesma maneira que escreve – com toda a personalidade. Muitos alegam que o trabalho de um romancista é mostrar-nos como o homem sente, e dizem que essa é uma operação em que seus próprios compromissos não interferem de maneira alguma. O romancista, como se diz, está em busca de um símbolo para expressar um sentimento, e se ele for judeu, cristão, budista ou o que quer que seja não faz diferença para a adequação do símbolo. Dor é dor, alegria é alegria, amor é amor, e essas emoções humanas são mais fortes do que qualquer simples crença religiosa; são o que são, e o romancista mostra-os exatamente assim. Isso é verdade até certo ponto, mas não dá conta de um romance. A grande ficção envolve todo o espectro do discernimento humano; não se trata simplesmente da imitação de um sentimento. O bom escritor não apenas encontra um símbolo para o sentimento, ele encontra um símbolo e um modo de fixá-lo que diz ao leitor inteligente se este sentimento é adequado ou inadequado, se é moral ou imoral, se é bom ou mau. E sua teologia, mesmo em seu mais remoto alcance, terá uma influência direta sobre ele.

Faz uma grande diferença para a feição de um romance se seu autor crê que o mundo veio à existência e se sustenta por um ato criativo de Deus, ou se crê que o mundo e nós mesmos somos produtos de um acidente cósmico. Faz uma grande diferença para o romance se seu autor crê que fomos criados à imagem de Deus ou se crê que fomos nós que criamos um Deus com nossas próprias mãos. Faz uma grande diferença se ele crê que nossa vontade é livre ou determinada como a dos outros animais.

Santo Agostinho escreveu que as coisas do mundo emanam de Deus de duas maneiras: intelectualmente, na mente dos anjos, e fisicamente, no mundo das coisas. Para a pessoa que crê nisso – como o mundo ocidental sustentou até poucos séculos atrás –, este mundo físico, sensível, é bom porque provém de uma fonte divina. O artista geralmente sabe disso por instinto; seus sentidos, que são usados para penetrar o concreto, assim o dizem. Quando Conrad disse que seu objetivo como artista era prestar a mais alta justiça possível ao universo visível, ele estava falando com o mais firme instinto de romancista. O artista penetra o mundo concreto a fim de encontrar em suas profundezas a imagem de sua fonte, a imagem da realidade última. Isso de forma alguma atrapalha sua percepção do mal, mas, ao contrário, a torna mais aguda, pois somente quando o mundo natural é visto como bom o mal se torna inteligível como uma força destrutível e uma consequência necessária de nossa liberdade.

Nos últimos séculos, temos vivido em um mundo cada vez mais convencido de que os limites da realidade terminam muito próximo da superfície, que não há uma fonte divina suprema, que as coisas do mundo não provêm de Deus de maneira dupla, nem de maneira nenhuma. Por quase dois séculos, o espírito popular de sucessivas gerações tem se inclinado mais e mais à visão de que os mistérios da vida por fim cairão diante da mente do homem. Muitos escritores modernos têm estado mais preocupados com o processo da consciência do que com o mundo objetivo fora da mente. Na ficção do século XX, cada vez mais, acontece de um mundo absurdo e sem sentido colidir com a consciência sagrada do autor ou da personagem; raramente, agora, autor e personagem saem para explorar e penetrar um mundo em que o sagrado está refletido.

No entanto, o escritor sempre tem de criar um mundo, e este deve ser crível. As virtudes da arte, como as virtudes da fé, são tais que vão além das limitações do intelecto, além de qualquer mera teoria que um escritor pode nutrir. Se está fazendo aquilo que como artista está obrigado a fazer, o romancista inevitavelmente sugerirá aquela imagem da realidade última conforme se pode vislumbrar em algum aspecto da situação humana. Neste sentido, a arte revela, e os teólogos aprenderam a não ignorá-la. Em muitas universidades, você encontrará departamentos de teologia cortejando intensamente os departamentos de inglês. O teólogo está interessado especificamente no romance moderno porque ali ele vê refletido o homem de nosso tempo, o descrente, que está, no entanto, agarrado de uma maneira desesperada e geralmente honesta com problemas intensos do espírito.

Nós vivemos em uma era descrente, mas que é notável e desequilibradamente espiritual. Há um tipo de homem moderno que reconhece o espírito em si mesmo, mas que deixa de reconhecer um ser fora de si a quem possa adorar como Criador e Senhor; consequentemente, ele tem se tornado sua própria preocupação última. Diz com Swinburne “Glória ao homem nas alturas, pois ele é o mestre das coisas”, ou com Steinbeck “No fim era a palavra e a palavra estava com o homem”. Para ele, o homem tem seu natural espírito de coragem, dignidade e orgulho e deve considerá-lo um ponto de honra a ser satisfeito com isso.

Há outro tipo de homem moderno que reconhece um ser divino que não ele mesmo, mas não acredita que este ser pode ser conhecido anagogicamente, definido dogmaticamente ou recebido sacramentalmente. Para ele, Espírito e matéria estão separados. O homem vagueia, preso em uma confusão de culpa que não é capaz de identificar, tentando alcançar um Deus do qual não pode se aproximar, um Deus incapaz de se aproximar dele.

E há um outro tipo de homem moderno que não é capaz de crer nem de conter-se a si mesmo na descrença e que busca desesperadamente, sentindo em tudo a experiência da perda de Deus.

Na melhor das hipóteses, nossa era é uma era de buscadores e descobridores e, na pior, uma era que tem domesticado o desespero e aprendido a conviver felizmente com ele. A ficção que celebra este último estado é a que tem menos chance de transcender suas limitações, pois quando a necessidade religiosa é banida com sucesso, ela geralmente atrofia, mesmo no romancista. O senso do mistério se esvai. Um tipo de evolução reversa se dá, e toda a gama de sentimento é embotado.

Os buscadores são outro assunto. Pascal escreveu em seu caderno: “Seu eu não O tivesse conhecido, não O teria encontrado”. Esses buscadores descrentes têm seu efeito mesmo entre aqueles de nós que acreditam. Começamos a examinar nossas próprias noções religiosas, para ressoá-las de forma genuína, para purificá-las no calor da agonia de nossos vizinhos descrentes. Que escritor cristão poderia ser comparado a Camus? Temos de procurar em muito da ficção de nosso tempo um tipo de sub-religião que expressa sua preocupação última em imagens que ainda não quebraram para mostrar qualquer reconhecimento de um Deus que se revelou. Tão grande quanto muito dessa ficção, tanto quanto ela revela um esforço sincero para encontrar a única verdadeira preocupação crucial, tanto quanto em muitos casos ela representa valores religiosos de uma ordem elevada, eu não acredito que ela possa adequadamente representar na ficção a experiência religiosa central – aquilo que, afinal, diz respeito a uma relação com um ser supremo reconhecido pela fé. É a experiência de um encontro, de um tipo de conhecimento que afeta todas as ações dos crentes. É a experiência de Pascal depois de sua conversão, e não de antes.

O que eu digo aqui estaria muito mais afim ao espírito de nossos tempos se eu pudesse falar para vocês sobre a experiência de escritores como Hemingway, Kafka, Gide e Camus, mas toda a minha própria experiência tem sido a do escritor que crê, de novo nas palavras de Pascal, no “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, não no deus dos filósofos e eruditos”. Este é um Deus ilimitado e que se revela de maneira específica. É aquele que se tornou homem e que levantou dentre os mortos. É um que confunde os sentidos e as sensibilidades, conhecido primeiramente como uma pedra de tropeço. Não há nenhuma maneira de encobrir essa especificação ou fazê-la mais aceitável para o pensamento moderno. Este Deus é o objeto da preocupação suprema e tem um nome.

O problema do romancista que deseja escrever sobre o encontro do homem com este Deus é como ele deve tornar a experiência – que é natural e sobrenatural ao mesmo tempo – inteligível, crível, ao leitor. Em qualquer época isso seria um problema, mas em nossa própria é quase insuportável. No público de hoje, o sentimento religioso se tornou, se não atrofiado, pelo menos nebuloso e piegas. Quando Emerson decidiu, em 1832, que não podia mais celebrar a Santa Ceia a menos que o pão e o vinho fossem removidos, deu-se um passo importante na vaporização da religião nos EUA, e o espírito daquele passo continua apressado. Quando o fato físico é separado da realidade espiritual, a dissolução da fé é, ao final, inevitável.

O romancista não escreve para expressar a si mesmo, não escreve simplesmente para apresentar a visão que ele considera verdadeira; ao contrário, ele apresenta sua visão de tal modo que ela possa ser transferida, o mais completamente possível, a seu leitor. Você pode seguramente ignorar o gosto do leitor, mas não pode ignorar sua natureza, não pode ignorar sua paciência limitada. Seu problema será cada vez mais difícil à medida que suas crenças se afastam das dele.

Quando escrevo um romance em que a ação central é um batismo, estou bastante consciente de que, para a maioria dos meus leitores, o batismo é um rito sem sentido e assim, em meu romance, tenho de conferir se este batismo causa suficiente admiração e mistério para sacudir o leitor em algum tipo de reconhecimento emocional de seu significado. Para este fim, tenho de direcionar o romance todo – sua linguagem, sua estrutura, sua ação. Tenho de fazer o leitor sentir em seus ossos, se em nenhum outro lugar, que algo importante está acontecendo aqui. A distorção, neste caso, é um instrumento; o exagero tem um propósito e toda a estrutura da história ou do romance foi feita de tal forma por causa da crença. Não é este o tipo de distorção que destrói; é o tipo que revela – ou deveria revelar.

Estudantes frequentemente têm a ideia de que os processos em operação aqui são dos que atrapalham a honestidade. Eles pensam que inevitavelmente o escritor, em vez de ver o que é, verá apenas o que crê. É perfeitamente possível, claro, que isso aconteça. Sempre, desde que o romance existe, o mundo foi inundado com uma má ficção pela qual o impulso religioso foi responsável.

O lamentável romance religioso surge quando o escritor supõe que, por causa de sua fé, está de alguma maneira dispensado da obrigação de penetrar na realidade concreta. Ele pensará que os olhos da Igreja, da Bíblia ou de sua teologia particular já terão construído a visão para ele, e que seu trabalho é rearranjar essa visão essencial em padrões satisfatórios, sujando-se o mínino possível no processo. Seu sentimento quanto a isso pode ser mais bem definido por uma daquelas teologias maniqueístas que vê o mundo natural como indigno de penetração. Mas o verdadeiro romancista, aquele com o instinto do que deve fazer, sabe que não pode se aproximar do infinito diretamente, que deve penetrar o mundo natural humano tal como ele é. Quanto mais sacramental a sua teologia, mais incentivo ele terá para fazer isso.

O sobrenatural é um embaraço hoje até para muitas igrejas. O viés naturalista saturou nossa sociedade a tal ponto que o leitor não percebe que ele tem de mudar sua visão ao ler algum tipo de ficção que trate de um encontro com Deus. Permitam-me deixar o romancista de lado por um momento e falar sobre seu leitor.

Este leitor tem, em primeiro lugar, de se livrar de um ponto de vista puramente sociológico. Nos anos 1930, passamos por um período nas letras americanas em que a crítica social e o realismo social eram considerados por muitos como os mais importantes aspectos da ficção. Ainda sofremos com uma ressaca desse período. Criei um personagem, Hazel Motes, cuja principal paixão era libertar-se da convicção de que tinha sido redimido por Jesus. A decadência do sul nunca entrou em minha cabeça, mas Hazel disse “eu viu” e “eu trazi” e ele era do leste do Tenessee; assim, a explicação de um leitor médio era que ele devia representar algum problema social peculiar àquela parte do sul não civilizado.

Dez anos, entretanto, têm feito alguma diferença em nossa atitude diante da ficção. A tendência sociológica se enfraqueceu naquela forma particular, mas sobreviveu em outra igualmente ruim. Esta é a noção de que o escritor de ficção está atrás de tipos. Eu não sei quantas cartas recebi dizendo que o sul não é, de maneira alguma, do jeito que eu o pintei; alguns me dizem que o protestantismo no sul não é como eu o retratei, que o protestante do sul nunca estaria preocupado, como Hazel Motes está, com as práticas penitenciais. É claro, como romancista, eu nunca quis caracterizar o Sul típico ou o protestantismo típico. O sul e a religião ali encontrada são extremamente fluidos e oferecem variedade suficiente para dar ao romancista a mais ampla gama de possibilidades imaginável, pois o romancista está obrigado pelas possibilidades razoáveis, não pelas probabilidades, de sua cultura.

Há um viés ainda pior que esses dois – o viés clínico, o preconceito que vê tudo o que é estranho como um caso de estudo do anormal. Freud trouxe à luz muitas verdades, mas sua psicologia não é um instrumento adequado para compreender o encontro religioso ou a ficção que o descreve. Qualquer determinação psicológica, cultural ou econômica pode ser útil até certo ponto; aliás, tais fatos não podem ser ignorados, mas o romancista estará interessado neles somente à medida que for capaz de passar por eles para dar um sentido de algo além deles. Quanto mais aprendemos sobre nós mesmos, mais fundo no desconhecido empurramos as fronteiras da ficção.

Tenho observado que a maior parte da melhor ficção religiosa de nosso tempo é mais chocante exatamente para aqueles leitores que alegam ter um intenso interesse em encontrar mais “propósito espiritual” – como gostam de dizer – nos romances modernos do que no momento podem detectar neles. O leitor de hoje, se crê na graça, a vê como algo que pode estar separado da natureza e pode ser-lhe servida crua como um êxtase instantâneo. A palavra favorita deste leitor é compaixão. Não quero difamar a palavra. Há um sentido melhor em que ela pode ser usada, embora raramente o seja – o sentido de estar em angústia com e para a criação em sua sujeição à vaidade. Este é um sentido que implica um reconhecimento do pecado; este é um sofrer com, mas que não abranda a rigidez e não faz concessões. Quando infundida nos romances, é geralmente repugnante. Nosso tempo não vai buscá-lo.

Já falei bastante sobre o sentimento religioso de que carece o público moderno, e ao objetar-me, pode-se indicar que há um verdadeiro retorno dos intelectuais de nosso tempo a um interesse em religião e a um respeito por ela. Acredito que isso seja verdade. No futuro saberemos em que este interesse pela religião resultará. Pode, junto com o novo espírito ecumênico que vemos por toda parte ao nosso redor, proclamar uma nova era religiosa, ou pode ser simplesmente que a religião sofra a última degradação e se torne, por algum tempo, um modismo. O que quer que signifique para o futuro, não creio que nossa sociedade atual seja uma em que as crenças básicas sejam religiosas, exceto no Sul. De qualquer maneira, não se pode ter uma alegoria efetiva em tempos em que as pessoas são assoladas de uma forma ou de outra por convicções momentâneas, porque todos a lerão de modo diverso. Não se pode indicar valores morais quando a moralidade muda com o que está sendo feito, pois não há uma base comum de julgamento aceita. E não se pode mostrar a ação da graça quando a graça é extirpada da natureza ou quando toda possibilidade de graça é negada, pois ninguém terá a menor ideia do que você está falando.

O escritor sério sempre toma o vício, na natureza humana, como seu ponto de partida, geralmente o vício numa personagem em outros aspectos admirável. O drama geralmente se baseia no fundamento do pecado original, quer o escritor pense em termos teológicos, quer não. Então, também, supõe-se que qualquer personagem num romance sério detém uma carga de sentido maior do que ele mesmo. O romancista não escreve sobre pessoas no vácuo; escreve sobre pessoas em um mundo em que algo está flagrantemente ausente, em que há o mistério geral da incompletude e a tragédia particular de nossos tempos a ser demonstrada, e o romancista tenta transmitir, em forma de livro, uma experiência total da natureza humana de qualquer tempo. Por essa razão, os maiores dramas naturalmente envolvem a salvação ou a perda da alma. Onde não há fé na alma, há muito pouca carga dramática. O romancista cristão se distingue de seus pares pagãos por reconhecer o pecado como pecado. Conforme a sua herança, ele não o vê como doença ou acidente do ambiente, mas como a escolha responsável da ofensa contra Deus que envolve seu futuro eterno. Ou se leva a sério a salvação ou não. E é bom perceber que a maior medida de seriedade admite a maior medida de comédia. Somente se estivermos seguros de nossas crenças poderemos ver o lado cômico do universo. Uma das razões por que boa parte de nossa ficção contemporânea é mal-humorada é que muitos desses escritores são relativistas e têm de continuamente justificar as ações de suas personagens numa escala móvel de valores.

Nossa salvação é um drama representado com o diabo, um diabo que não é simplesmente o mal generalizado, mas uma inteligência má determinada por sua própria supremacia. Eu acho que, se escritores com uma visão religiosa do mundo se sobressaem nesses dias no retrato do mal, é porque eles têm de tornar sua natureza inconfundível com a de sua audiência particular.


O romancista e o crente, quando não são o mesmo homem, ainda mantêm muitos traços em comum – uma desconfiança do abstrato, um respeito pelos limites, um desejo de penetrar a superfície da realidade e de encontrar em cada coisa o espírito que o faz ser o que é e sustenta o mundo unido. Mas eu não acredito que tenhamos uma grande ficção religiosa até que tenhamos de novo a feliz combinação de um artista crente e uma sociedade crente. Até que chegue esse tempo, o romancista terá de fazer o melhor que puder no trato com o mundo que tem. No fim, ele pode verificar que, em vez de refletir a imagem no coração das coisas, ele apenas refletiu nossa condição decaída e, por meio dela, a face do mal pelo qual estamos todos possuídos. É uma realização modesta, mas talvez necessária.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Sócrates e Jesus Cristo



Seria lógico que a morte do Sócrates-homem tivesse o sinete da desordem, do sangue, da traição e da raiva; mas não, foi o mais possível tranquila e digna. A de Cristo, ao contrário, tem – inteiramente – o sinete da tragédia, do desgosto e do horror. Sócrates morre calmo, cercado de discípulos fiéis e atentos, que lhe sorvem as palavras ao mesmo tempo em que ele – imperturbável e luminoso – sorve o veneno indolor oferecido com muita deferência pelo algoz. Abandonado e traído pelos seus, Cristo se retorce na cruz, angustiado pela sede e coberto de zombarias. Sócrates morre como um senhor. Cristo como um vadio, entre dois ladrões, num lugar descampado, periférico. Sócrates agradece aos deuses por escapar das vicissitudes do mundo material, Cristo exclama: “Por que me abandonaste?”.

A diferença é total entre as duas mortes, e exatamente a divina parece inferior, turva. A verdade é que, sem dúvida, é a mais humana; a de Sócrates, em toda a sua grandeza, parece – em contraste – literária, abstrata, submetida a uma direção teatral e, mais ainda, irrealista. Sócrates – com boa fé e vitorioso em boa parte – se eleva do estado de homem para o de deus; Cristo desce desimpedido pela imundície até as camadas mais baixas da condição humana.


Nicolae Steinhardt, O Diário da Felicidade. Trad. Elpídio Fonseca. São Paulo, É Realizações, 2009, p. 112.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Conheçam "George Macdonald Brasil"

George Macdonald Brasil

O blog George Macdonald Brasil tem se dedicado a apresentar ao público brasileiro a obra do escritor de fantasia, romances, contos de fadas, conferencista e pastor George Macdonald. Lá você encontra pérolas de sabedoria como esta aqui:

Se o evangelho de Jesus não é verdadeiro, posso apenas orar para que meu criador me aniquile, pois não há mais nada por que valha a pena viver; e, se é verdadeiro, tudo no universo é glorioso, exceto o pecado... Uma das minhas maiores dificuldades de consentir em pensar na vida religiosa é que eu julgava que teria de abandonar meus belos pensamentos e meu amor pelas coisas que Deus criou. Mas descobri que a felicidade que brota de todas as coisas não pecaminosas em si mesmas é aumentada pela religião. Deus é Deus da beleza; religião, o amor à beleza; e o céu, o lar da beleza. A natureza é dez vezes mais brilhante sob o Sol da justiça, e meu amor pela natureza é mais intenso desde que me tornei cristão – se é que de fato sou um. Deus não me deu estes pensamentos para em seguida proibir-me de desfrutar deles.
Sim, sou o responsável por este blog também. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sobre a literatura cristã




Arnoldo Canclini é um pastor batista argentino, autor de um breve livro a respeito da arte da escrita destinado a cristãos. Ainda que em muitos sentidos o livro esteja datado e, em outros, diga respeito a uma realidade específica de seu país, não creio que o que aqui se diz não se aplique igualmente ao público brasileiro. É uma realidade triste, mas que vem sendo pouco a pouco modificada. Minha esperança é que, em breve, livros como este não precisem ser escritos.


Arnoldo Canclini, Escribe! Manual del escritor cristiano. Buenos Aires, Ediciones Certeza, 1978, p. 18-22.








[O MINISTÉRIO DA PALAVRA ESCRITA]

Por Arnoldo Canclini

Qual é a nossa missão como escritores? Há muitas coisas que poderíamos dizer a respeito, mas podemos assinalar algumas que são mais básicas, para sentir a verdadeira necessidade da tarefa.

Em primeiro lugar, temos de perceber o desafio do mundo. Não nos referimos aqui à óbvia necessidade que este tem de conhecer a mensagem da Verdade, mas, sim, a de responder ao uso que outras forças espirituais estão fazendo da palavra escrita. Notamos hoje em dia a superabundância da produção. O que Salomão pensaria atualmente se já em seu tempo opinava que “não há limite para fazer livros” (Ec 12:12)? É questionável que a abundância seja uma bênção. Não podemos restringir a inspiração nem a liberdade de ninguém, mas a facilitação dos meios técnicos deu origem a uma superprodução, em detrimento da qualidade literária e moral. Em empresas, quiosques, vitrines de todo tipo, abundam revistas e folhetins com os quais o público preenche seu tempo, mas não a sua alma e que não acrescentam nada a sua cultura e bom gosto. É urgente pôr em circulação cada vez mais uma produção que tenha um verdadeiro conteúdo positivo e construtivo.

Certamente, dentro do mesmo tema figura o uso cada vez mais abundante por parte das ideologias anticristãs. O intenso uso que os comunistas têm feito em todo o mundo não precisa ser explicado, porque está à vista de todos. Frank Laubach, o campeão da alfabetização em esfera mundial, missionário evangélico, dizia que “os cristãos ensinam o povo a ler e os comunistas lhes dão o que ler”. Isso é especialmente correto em relação às massas recém-alfabetizadas. Ademais, dentro da mesma esfera religiosa parece haver uma regra de que quanto mais herética for uma seita mais ela difunde sua mensagem por meio da palavra escrita. Esses grupos costumam ter pouco acesso a meios como o rádio, a televisão ou os jornais, de modo que voltam seus esforços para a produção e distribuição em massa de sua mensagem impressa. Isso pode ser combatido unicamente por meio de outro impresso.

O problema que surge dos pontos supracitados está na acessibilidade de toda essa leitura. Antes, o homem que tinha um livro era muito privilegiado. Uma única cópia circulava de igreja em igreja. Hoje todos os que querem fazer o mínimo sacrifício financeiro – ou que se atrevam a pedi-lo emprestado – podem conseguir um livro e, muito mais rapidamente, uma revista. Tudo isso se encontra ao alcance de qualquer bolso e de qualquer mão, já que é fácil de encontrar. Em geral, nossa literatura cristã e, lamentavelmente, até a Bíblia se encontraram reclusas em nossas bibliotecas, onde o grande público não vai. Isso certamente é assunto de outra alçada, mas podemos sim pensar em que medida temos sido capazes de produzir uma literatura que se imponha por si mesma ao público geral.

Por fim, devemos assinalar a luta sem quartel – e já perdida segundo alguns – contra outros meios de recepção mais simples. Quadrinhos estão substituindo a leitura, inclusive no gênero emotivo das fotonovelas femininas. Aqueles que escrevem sentem um ardor na boca do estômago quando perguntamos a alguém se já leram Dom Quixote ou Hamlet, por exemplo, e nos respondem: “eu vi no cinema”. Já assinalamos por que esses outros meios não podem substituir a leitura. Numa época em que a tendência a ligar a televisão é maior que a de abrir uma obra séria, a luta deve ser empreendida com tenacidade e capacidade. Há uma segunda razão que devemos aceitar com pesar: temos que lutar pela criação de uma boa literatura cristã, uma vez que, em linhas gerais, temos de reconhecer que não existe uma consciência formada a respeito. Uma forma muito clara de demonstrá-lo encontra-se numa anedota. Um professor de matérias relacionadas com o nosso assunto diz que costuma apresentar-se diante de um público cristão e pede que levantem a mão todos os que oram pelos missionários: imediatamente surge um mar de mãos. Em seguida, repete a pergunta quanto aos evangelistas e então o número de mãos se reduz. Por fim, pede para ver as mãos dos que oram pelos escritores cristãos e não se vê nada, até que finalmente, lá no fundo, se levanta uma mão, “a qual”, diz, “espera que pelo menos expresse algo sincero”.

Em geral, não é certo que um pregador obtém mais admiração e reconhecimento que um escritor? Por quê? É difícil dizer, exceto pelo fato de que se encontram muito mais ouvintes de pregadores do que leitores de bons livros. Isso faz com que, quando se trata de conseguir apoio – inclusive financeiro – para um pregador, seja relativamente fácil consegui-lo, ao passo que é quase absurdo consegui-lo para quem sinta a vocação de escrever como um imperativo divino. Essa falta de apoio se traduz também na esfera espiritual. Basta ver o exemplo sobre a oração.

Por isso mesmo, é possível que haja muitos bons escritores em potência que nosso meio não tem sabido incentivar ou nem mesmo descobrir. Temos de reconhecer que nos faltam bons escritores. Não podemos jogar a culpa em Deus e dizer que Ele não tem derramado esse dom. Mas há um fato facilmente comprovável, a saber, nem mesmo nos idiomas com uma grande cultura cristã aparecem bons romancistas ou poetas: no ambiente evangélico sobram os dedos de uma mão para contá-los. Mesmo na esfera de produções menos literárias, como os estudos bíblicos, é lamentável comprovar que, apesar dos esforços dos editores – comumente potenciais escritores reduzidos a um escritório para poder sobreviver – o idioma é francamente pobre, quando não horrível.

Tudo isso remonta à falta de consciência de leitura em nosso povo. É certo que há um despertamento nesse sentido, mas o crescimento no nível cultural não tem sido acompanhado de um aumento paralelo no consumo de literatura que inspire ou eduque. Mesmo em nível popular, não se busca a literatura cristã como elemento de distração ou de apoio aos próprios problemas. Possivelmente, enquanto não conseguirmos que os pregadores se transformem em bons leitores e promotores da leitura, não será possível que aumente o número de autores. Alguém nos dirá que enquanto estes não forem bons, no mínimo adequados, não aumentará o número de leituras. E não poderemos negar-lhes a razão... mesmo que duvidemos que sejam bons e adequados os materiais de leitura que são consumidos. Afinal de contas, é um círculo que alguém tem de começar a mover. E quem melhor do que aqueles que sentem uma compulsão divina de pôr por escrito suas palavras?

Fechemos este tema indicando que não basta lutar contra o mal ou contra a indiferença, mas que é necessário ter um propósito adequado para escrever. Devemos analisar a fundo, com a consciência diante de Deus, nossa motivação para escrever. Mesmo quando escrevemos para entreter, nossa finalidade última é conseguir um impacto no leitor. Queremos que se sinta interpelado, que capte nossa intenção de dizer-lhe algo pessoalmente. Por que, além disso, queremos que seja transformado. Como cristãos, queremos que ao terminar a leitura ele esteja diferente de quando a começou. Se não tiver aprendido algo novo, pelo menos deve estar mais contente e seguro de sua experiência espiritual. Por isso, nos atrevemos a dizer que, assim como fazemos com a pregação, ao escrever estamos procurando decisões da parte dos leitores. É verdade que quase nunca chegaremos a conhecê-las, mas é uma das bênçãos do escritor: saber que ao chegar à eternidade encontrará uma multidão de resultados que jamais imaginou na terra.

Terminamos citando a palavra de um especialista. Ao definir qual é a missão do escritor cristão, Clifton Allen, por muitos anos secretário geral do programa literário dos batistas do sul dos Estados Unidos, disse que nosso propósito há de ser:

Fazer com que o evangelho eterno seja uma realidade vivente atual; contar a história das boas novas do amor de Deus em Cristo, de modo que os corações humanos (pecadores, cansados, desesperados) lancem exclamações de gozo em todas as partes; relacionar a sabedoria desvelada das escrituras com os problemas e tensões de nossa geração, para que os homens digam “Provemos o caminho de Deus”; mostrar tão claramente o poder do amor e das bênçãos da justiça e a realidade da vida duradoura que os leitores queiram seguir a verdade, praticar o amor, sofrer com paciência e entregar-se ao serviço de Cristo.

É uma bela meta, não é? Acaso não vale a pena esforçar-se para alcançá-la?

terça-feira, 29 de abril de 2014

Carta de Voegelin sobre Louis Lavelle e René Le Senne



Dr. Alvin Johnson, Diretor
The New School for Social Research
66 West Twelfth Street
New York, New York

Prezado Dr. Johnson,

Recebi tua carta de 19 de setembro, na qual me pedes um parecer sobre a obra de Louis Lavelle e  de René Le Senne.

Permite-me, em primeiro lugar, dizer quanto os conheço. Não tive contato pessoal com nenhum dos dois, nem mesmo por correspondência. Tudo que sei sobre eles o sei pela leitura de alguns de seus livros, anos atrás. Estou prestes a me mudar e minha biblioteca está inacessível, então tudo o que tenho para dizer digo-o de memória. Com essas reservas, posso dizer o seguinte:

A obra desses dois filósofos me é de especial interesse porque ambos representam, do lado francês, aquela tendência à reinterpretação da natureza do homem em que o pensamento alemão contemporâneo é representado por Jaspers e Heidegger, e que é tecnicamente caracterizado como filosofia existencial (ou filosofia da existência humana). Pode-se remontar essa tendência ao início do século XIX, na obra de Kierkegaard, e parece-me de considerável importância porque é um movimento alheio à abordagem puramente metodológica, antirreligiosa ou antimetafísica dos problemas da filosofia que dominou o período até a [I] Guerra Mundial. Isso significa uma nova consciência das questões básicas da natureza humana, e uma tentativa de esquadrinhá-las sem atar-se ao dogmatismo de igrejas estabelecidas. Neste sentido, considero as obras de Lavelle e Le Senne como um dos sintomas mais auspiciosos na evolução da filosofia na França; parece-me um indicador da vivacidade e da independência desses dois filósofos; e representam, para mim – com a devida vênia pela limitação do meu conhecimento –, a mais auspiciosa e promissora expressão da vida filosófica francesa no momento.

Não sou capaz de indicar outros estudiosos neste país que estejam familiarizados com a obra de Lavelle e Le Senne, como me pedes. Mas suponho que alguém como Mortimer Adler saiba algo sobre a contribuição deles. Julgo altamente provável que Waldemar Gurian, da Universidade de Notre Dame, conheça bem a obra destes autores.

Asseguro-te que para mim é sempre um prazer, e sempre será, repassar tais informações quando as tiver, e sobretudo se estas contribuírem, por pouco que seja, para por relevo a situação de homens distintos como Lavelle e Le Senne que, a partir das implicações de sua carta, não parecem ser promissores só agora.

Atenciosamente,



Eric Voegelin

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Da importância do outro


Trecho de entrevista concedida pelo professor Mendo Castro Henriques* a Carolina Matos e publicada pelo Portuguese American Journal. A tradução é minha. (Publicada com autorização) 


ENTREVISTADOR: Ao longo de toda a sua carreira, o senhor tem explorado e escrito sobre uma ampla gama de assuntos, de filosofia política e ética a história e religião. Recentemente o senhor e Nazaré Barros escreveram juntos Olá, Consciência!, um livro dedicado à filosofia da consciência como um valor individual e social. Por que escrever este livro agora?


MENDO: O livro surgiu como um alerta à necessidade de uma mudança de paradigma – de uma sociedade centrada no “eu” para uma sociedade cujo foco está no “nós”. A mudança começa com a percepção de que a “consciência” não deve ser compreendida como o “eu” da psicologia ou como um epifenômeno resultante de processos neurológicos, mas, antes, como um a relação entre o “eu” e o “outro”. Como disse certa vez Viktor Frankl, “em última instância, o homem não deve perguntar qual é o sentido de sua vida; deve reconhecer que é a vida mesma que lhe está perguntando”, uma fórmula que ecoa a fala do Presidente Kennedy. Temos de começar não por ouvir nossos projetos, mas pelos planos que a vida tem para nós por meio do encontro com o outro. Esse choque de paradigmas pode ser desconcertante. Creio que o livro, num primeiro momento, causa algum desconforto ao leitor, ao menos para aqueles que estão acostumados a aceitar opiniões e estilos de vida sem “consciência” do que estão fazendo ou pensando. Devo dizer que “Olá, Consciência!”, assim como Sócrates e as moscas que perturbam o sono de todos, pretende por em xeque muitos clichês e mitos urbanos, forçando o leitor a deixar a zona de conforto, na qual com muita frequência são os preconceitos que definem tudo.



ENTREVISTADOR: A filosofia tem a fama de ser especialmente hostil às mulheres. O senhor acaba de ser coautor com uma filósofa. Pode comentar essa experiência?



MENDO: A filosofia nasceu como uma forma de diálogo – das perguntas que fazemos e das respostas que conseguimos. Podemos dialogar conosco mesmos ou com o outro. Neste caso, o diálogo foi entre duas pessoas. Para ser mais preciso, a ideia original do livro só se desenvolveu quando Nazaré começou a dialogar comigo. Foi assim que o processo começou e é assim que “Olá, Consciência!” justifica seu título – que é, obviamente, uma saudação que simboliza este encontro. Os 10 primeiros capítulos tratam da descoberta das ferramentas intelectuais e emocionais que constituem a base de nossos modelos de pensamento e de busca da “verdade”. Os capítulos 11 a 21 expandem o debate para a ação humana na história, a política, a religião, a economia e a arte, procurando refletir sobre o que é valioso e “bom”. Escrevê-lo foi ainda mais prazeroso porque Nazaré e eu, como muitos leitores apontaram, conseguimos alcançar uma síntese perfeita – como tocar piano a quatro mãos.



ENTREVISTADOR: Qual o papel do filósofo e da filosofia no mundo atual?


MENDO: A filosofia sempre tentou ser a síntese de ideias que sustentam o que fazemos e o que pensamos. Essas ideias estão nas obras de arte, na ciência, no direito, na política, na ética e em tudo o mais que vive. No passado, os filósofos apresentavam esta síntese como um todo a ser aceito ou rejeitado. O conceito mudou desde então. De uma perspectiva mais conservadora, estamos vivendo naquilo que sobrou de nossas tradições, as quais, conforme escreveu Alasdair McIntyre, se tornaram a “terra desolada” que T. S. Eliot descreveu. Aqui, Platão e Aristóteles, e mesmo Descartes ou Hegel, são vistos como referências exóticas para a cultura de massa. Esse afastamento de nossas raízes intelectuais tem sido culpado pela chamada “crise de valores”. Todavia, sem esta “travessia do deserto”, nossas ideias não teriam alcançado autenticidade. Portanto, não creio que estamos enfrentando uma “falta de valores”, mas uma abundância de valores na ausência da ética. A ética tradicional já não é suficiente para enfrentar o futuro incerto que, como nos advertiu Hans Jonas, está cheio de riscos. O papel da filosofia hoje é reconstruir a ponte com as nossas raízes intelectuais, o que só pode ser conseguido por meio do reconhecimento do outro.



ENTREVISTADOR: Em sua opinião, quais são os maiores problemas filosóficos de nosso tempo?


MENDO: No século XX, a filosofia – e em particular o conhecimento do “eu” – deixou de ser uma preocupação de poucos estudiosos e, como observou Bernard Lonergan, passou a ser uma questão social. Portanto, devemos começar por dizer “não” ao pensamento centrado no “eu”. A questão é: como podemos, de fato, conectar-nos ao outro? Filósofos como Martin Buber, Franz Rosenzweig, Viktor Frankl, Emmanuel Levinas, Hans Jonas, Giusepe Zanghi, Charles Taylor e Gabriel Marcel demonstraram que o diálogo é de suma importância para a existência humana. Creio que, enfim, nossas preocupações podem resumir-se numa única sentença: “Queremos ser ouvidos”. O mundo não quer mais ser explicado – quer ser ouvido. O povo não quer mais ser tão somente representado – quer compartilhar. No núcleo da realidade, há uma voz que clama: “Queremos ser reconhecidos”.



ENTREVISTADOR: Se o senhor pudesse escolher uma única coisa para mudar no mundo, o que seria?

MENDO: Em vários sentidos, o século XX foi o século do “eu” que gerou o ego de grandes ditadores, como Hitler, Stálin e Mao Zedong, que impuseram sua vontade sobre os outros por meios bárbaros e violentos. Ele também gerou o egoísmo individual comum a produtores e consumidores. Creio que o século XXI será o século do “nós”, no qual nenhum ato coletivo substituirá jamais o ato singular de encontrar o “outro” e no qual reconheceremos o sentido que resulta de nosso encontro com a singularidade do outro. Ao ignorar o outro, abriremos passagem para atos de corrupção e violência e para a imoralidade pessoal e social. Pensadores dialógicos agora respondem ao barbarismo do século XX demonstrando de que maneira a razão egoísta nos levou ao malogro. Precisaremos aprender que ser ético é ser capaz de enfrentar não apenas os fatos históricos e sociais mais importantes, mas também os acontecimentos mais corriqueiros que podem incorporar atos violentos e desumanos contra o outro, e que, porque estão situados em arcabouços históricos e sociais, podem ser considerados “normais”. Ser violento é negligenciar o outro, e a filosofia deve evitar isso.


* Mendo Henriques - Nasceu em Lisboa (1953) tem quatro filhos e vive em Lisboa, onde é professor. É licenciado e mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa e doutorado em Filosofia Política pela UCP (1992). Tem 12 títulos publicados em Portugal, Brasil e França sobre Fernando Pessoa, Eric Voegelin, Bernard Lonergan, e temas de filosofia da consciência e obras em conjunto sobre temas de cidadania e história. Ocupou cargos de assessor e dirigente entre 1994 e 2007 no Ministério da Defesa Nacional. Tem proferido numerosas conferências no país e no estrangeiro sobre temas da especialidade.

 

terça-feira, 8 de abril de 2014

A força de um testemunho



Quando os demônios sobrevoam as casas e com poderes asmodeicos levantam os telhados, o que se vê? Avistam-se longas filas de corredores onde, voltando do trabalho, as donas de casa soviéticas cozinham num fogareiro Primus o jantar.

Este é o comunismo! Este, e não outro: o camarada do bairro, o espaço locativo (escritório estatal para designação de moradias), o certificado de origem social, a delação obrigatória, as filas, o fogareiro Primus.[1] Enquanto um bilhão e meio de imbecis, no ocidente, suspiram, participam de manifestações, raptam, urram, escrevem, despojam-se, deixam crescer a barba, fazem amor em público, jogam coquetéis molotov para realizar um ideal: o fogareiro, a maquininha com gás dos pobres.

As donas de casa, estas, não têm o que fazer. Mas aquele um bilhão e meio, quem nele para para pensar é tomado pela loucura.

Outro comunismo? Se tivesse sido realizado em outro lugar, teria sido diferente? Quando nós o fizermos, será outra coisa.

Ilusões, tolices. No entanto, com os mesmos elementos constitutivos ides trabalhar. Ides chegar ao mesmo lugar. Ao mesmo racismo social, o marxista não menos do que o leninista (embora seja, talvez, um homem correto, apesar de a burguesia ter tido um papel progressista, não temos o que lhe fazer: sois como sois, e de outro modo não podeis ser, assim deveis ser condenado).

É este, não outro. Vingador. Pequeno. Podre. Grosseiro. Invejoso. Crente na trindade: ódio, suspeita, inveja. Com boca de regateira e ódio de serviçal. A sociedade do bem-estar, onde a cozinha é um fogareiro Primus no corredor.

Sabem eles, os demônios, como se encarnar, não é por acaso.

N. Steinhardt, O Diário da Felicidade. Trad. Elpídio Fonseca. São Paulo, É Realizações, 2009, p. 217-18.





[1] Uma marca de fogareiro a gás, que, na época, era objeto de desejo de muitos. (N. T.)