

Em algumas regiões do país ainda é comum os pais darem um incentivo para iniciar os filhos machos nos prazeres da vida. Levam o moleque até uma casa de pouca luz e muito fogo, e lá elegem uma funcionária para mostrar o desconhecido ao inocente. E o meninão, tremendo mais do que vara verde, perde a candura assim, à força. Não se trata de uma escolha, mas de uma imposição ritualística, litúrgica. E ai do guri que ousar questionar o método: ganhará, no mínimo, a alcunha de frouxo.
Lúcia Hippólito me fez refletir sobre o triste destino daqueles que ainda não se sentem preparados para empreitada; para aqueles que alimentam o desejo de encontrar um grande amor para juntos desbravarem os prazeres do desconhecido. “Baitola!”. E por que digo isso? Leio no blog da cientista política a iniciativa de um grupo de estudantes do Rio de Janeiro que estaria ressuscitando o “Se liga 16”— movimento criado pela UNE durante a Constituinte para conscientizar os jovens sobre a importância da participação política, e para convencer a Constituinte a diminuir a idade mínima para votar.
Lúcia, sempre inteligente e honesta, não deve ter passado por essa idade. Pulou da infância para a idade adulta. O que se faz com 16 anos? Inutilidades sociais. E digo isso não como censura, ou deboche. Ao contrário: é natural que as inutilidades sejam feitas nessa fase da vida. A idéia de “conscientizar” a molecada de 16 anos a participar do processo político me parece semelhante ao pai que quer ajudar o moleque a se tornar sujeito homem.
Não que ele não esteja preparado para isso — tanto ir à casa da luz vermelha, quanto às urnas —, mas porque parece ser inadmissível o sujeito com 16 anos (!) não se interessar pela(s) matéria(s). Alienado! Bicha! E o que é participar? Seria apertar o verde e confirmar? Tenho certeza de que a noção de “participação” dos defensores de nossos calouros não é a urna. Sempre que se fala em participação, a questão parece remeter à militância, ao proselitismo. “Participante” é quem levanta bandeira, pinta a cara, faz panelaço. Ao contrário, alienado é quem está pouco se lixando para a política.
O moleque de 16 anos que deixa a barba falhada crescer, usa camisa do Che, diz-se marxista (sem nunca ter lido o velho) e milita pela importância do voto para a consolidação da democracia, é logo tido por politizado. O pobre diabo, espinhudo, virgem e que só quer saber de estudar matemática para ser engenheiro igual ao papai, é, logo, um alienado. Tem tudo para ser um eleitor do DEM, coitado. Não serve para nada: será o alvo do “Se liga , 16”.
Barackmania
Num determinado trecho do texto, Lúcia diz que “ganhe ou não as eleições americanas, Barack Obama já tem o indiscutível mérito de ter trazido a juventude americana de volta para a política. Nos Estados Unidos, os jovens não tinham tamanha participação política há quase 40 anos”. Olha só: não é só nos Estados Unidos que Obama faz sucesso. Se a eleição fosse aqui, nossas crianças o elegeriam no primeiro turno. Mas pergunte ao imberbe uma única proposta do Barack. Pergunte qual é o plano do homem para o Iraque, para a economia, para a América Latina. “We can change” é tudo o que se sabe sobre o homem. E para os jovens isso parece o suficiente: uma oratória formidável e a palavra mudança. E o que é necessário mudar? Não importa. Mudar é preciso. “Ah, mas idade não resulta, necessariamente, em consciência política”. Jura? Mas o que questiono é a idéia de tomar a “consciência” política como um valor. Quem supostamente não a tem, deve logo obtê-la para não ser visto como um pária, um leproso.
E é justamente essa exigência de respostas por parte daqueles que ainda não tiveram tempo de formular as perguntas que faz dos jovens a classe mais suscetível ao alinhamento automático, ao espírito de rebanho. Pobrezinhos...
Defendamos o direito de cantar e andar para política; lutemos para que nossos jovens tenham o direito de assistir Malhação enquanto Lúcia Hippólito se delicia com o horário eleitoral.
Assim, eu proponho uma contra movimento: o Sai de Retro, 16. Socialmente mais responsável, minha proposta visa afastar, ainda mais, a molecada de 16 anos do cenário político. E todo mundo ganha com isso: os jovens, que poderão gastar energia com coisas mais divertidas; e a própria política, que se preserva da possibilidade de participação de quem só quer pagar de consciente para conquistar as menininhas.
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Lúcia, desculpe, sei que não foi pra tanto. Acho que é a idade: estou me tornando um velho ranzinza...