sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Para além da crítica

Que a igreja evangélica brasileira atual chegou a um estado deplorável é algo que não se pode negar. Tenho por certo que dificilmente, outrora, um ficcionista seria capaz de criar um personagem cristão com um cinismo tão assustador quanto o que vemos hoje. E ainda que fosse capaz de conceber, talvez seus editores pedissem para abrandar um pouco, pois isso comprometeria a verossimilhança da história. Bem, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança...

Os escândalos são de todos os tipos. Há casos de envolvimento de cristãos na lavagem de dinheiro; há casos de abusos litúrgicos; há casos de bizarrice pura e simples; há casos de profunda distorção das escrituras; há casos de superstição gospel; há casos de verdadeiras monstruosidades, tudo, sempre, claro, com aquela afetação mui espiritual. Continuamente vemos novidades/Diferentes em tudo da esperança...

Dentre os que presenciam tais fatos, há uma massa meio atônita que não sabe mais reconhecer a voz de seu Senhor e há uma minoria pretensamente esclarecida que não se recusa a atentar para toda essa miséria. O problema é que, mesmo neste grupo, surge uma nova categoria de escândalo. Refiro-me aos escarnecedores gospel! Ao invés de empenharem-se em divulgar uma experiência cristã genuína, limitam-se apenas a escarnecer dos demais, tanto dos ludibriados quanto dos ludibriadores. Quase ouço aqui a oração: Obrigado, Senhor, porque não sou como este publicano. A denúncia, que seria legítima, dá lugar a um sarcasmo opressor que em nada se assemelha ao espírito das admoestações paulinas. Todo o mundo é composto de mudança/Tomando sempre novas qualidades.

Não pretendo aqui exaltar uma igreja que já não mais existe, assumindo uma posição retrógrada, que procura restabelecer uma ordem perdida. Tampouco cedo diante da desilusão, do desgosto e do desânimo. Todo cristão que se preza já entendeu que devemos olhar para o Autor e consumador de nossa fé, e não para as circunstâncias. Aliás, como bem nos ensina Viktor Frankl, o homem é um ser livre, ainda que se refira apenas à sua liberdade interior. Diz ele: O que é, então, um ser humano? É o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios. O nosso Mestre foi um exemplo de alguém que afrontou as circunstâncias sem render-se nem desviar-se de seu propósito. Do mal ficam as mágoas na lembrança,/E do bem, se algum houve, as saudades.

De minha parte, intuo que existe, sim, um evangelho pelo qual valha a pena lutar, um evangelho que valha o nosso engajamento, um evangelho que nos faça olhar para o Senhor, um evangelho que nos faça olhar para o próximo, um evangelho, enfim, que seja boa notícia e não parte do noticiário. Onde ele está? Estou procurando. Se estiver disposto a procurar comigo, somos amigos. Tenho esperança de novos tempos. O tempo cobre o chão de verde manto,/Que já coberto foi de neve fria,/E em mim converte em choro o doce canto.

Há uma palavra que pode definir o que precisamos hoje. Mas também ela está desgastada. Associaram-na a um anti-intelectualismo bocó e já virou até nome de programa de um dos escandalosos aludidos acima. Uma pena. Essa palavra falava de vida, não de morte... Ouso mencioná-la, sim, porque não posso deixá-la na mão de usurpadores. Precisamos de um avivamento. Avivamento é também mudança. E, afora este mudar-se cada dia,/Outra mudança faz de mor espanto:/Que não se muda já como soía.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Fala, Viktor Frankl

Já há bastante tempo, meu amigo Felipe Cherubin tem se dedicado à tradução de alguns dos vídeos do Dr. Viktor Viktor Frankl que estão disponíveis na Associação Vienense de Logoterapia. A intenção, na verdade, é fazer com que a tradução dos vídeos ajude a popularizar a logoterapia no Brasil. Mais importante do que aderir pura e simplesmente a uma ideia, sugiro que todos deem a devida atenção ao que Frankl tem a dizer, sabendo que não se trata de um mero filosofante de gabinete, mas, antes, ao contrário, um homem que presenciou, em meio ao horror do campo de concentração, a prova empírica de sua teoria.
A seguir, trechos da entrevista.

Parte 1


Parte 2

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Minha vida profissional

A entrevista a seguir era parte da pesquisa acadêmica de uma mestranda da PUC-SP. Fui um dos profissionais que concordaram em responder a suas perguntas e contribuir para seu trabalho. O que vai aqui é um misto de confissões de um ex-adolescente e algumas experiências que se acumulam. A discussão está aberta:

Questões para copidesques e revisores como parte da pesquisa de mestrado desenvolvida na PUC-SP

1. Qual é a sua formação acadêmica?

Licenciatura plena em Língua portuguesa/Língua inglesa – Centro Universitário São Camilo.

2. Como ingressou na profissão?

Mais ou menos por acaso. Estava cursando o último ano de faculdade e desempregado. Cadastrei meu currículo no site de uma agência de empregos e fui chamado para uma entrevista. A proposta inicial era para um estágio, mas a empresa optou por registrar-me como profissional desde o início.

3. O que motivou sua escolha profissional?

Como disse, não foi propriamente uma escolha. Na época, eu pensava em ser professor, embora não me agradasse muito a ideia de ser professor eventual e ter de encarar o despeito de adolescentes rebeldes (ao menos esse era o quadro que eu pintava).

4. Há quanto tempo atua? (Especificar: revisor, copidesque ou ambos)

Trabalho como revisor já há quase cinco anos. Quando comecei, não sabia como delimitar as atribuições de um copidesque e as atribuições de um revisor. Demorou um pouco até introjetar os limites da intervenção no texto. Aliás, ainda hoje tenho de lidar com suscetibilidades de um ou outro escrivinhador* mais zeloso de seus textos que se queixa: Quem mexeu no meu texto?!

(*Como presto serviços a empresas, revisando seus manuais de treinamento e parte de suas comunicações internas, os autores dos textos não são escritores, mas gerentes, diretores e outras funções burocráticas. A competência profissional destes, estou certo, independe de suas habilidades de redação!)

5. Definir características do trabalho de copidesque e/ou revisor (ambos, conforme o seu caso).

A distinção entre o trabalho do revisor e do copidesque é justamente a liberdade que se tem para modificar o texto. É perfeitamente possível apresentar um texto gramaticalmente correto, sem problemas de ortografia e, ainda assim, terrivelmente mal escrito. Seja porque a adequação do vocabulário está falha, seja porque a paragrafação está desequilibrada, seja porque há uma porção de aliterações, ecos e outros problemas fonéticos, seja porque, em alguns momentos, não há uma progressão textual, seja porque a estratégia argumentativa não foi a mais eficaz, enfim, há mil e uma razões por que um texto pode estar correto e mal escrito. Isso distingue o trabalho do revisor e do copidesque: enquanto aquele zela pela correção gramatical e ortográfica, este tem de levar em conta os elementos aqui elencados e outros mais.

6. De acordo com sua vivência, no trabalho com o texto, há uma fronteira definida entre copidesque e revisor? Ou existe um embricamento? Explique.

É natural que as tarefas se misturem um pouco. O revisor, no entanto, segundo o meu entendimento, há de ser mais comedido em suas intervenções. A supressão ou reescrita de parágrafos inteiros é um tipo de atividade previsto no trabalho de um copidesque, mas não no de um revisor.

7. Atua de forma permanente ou esporádica (como “bico”)?

Permanente. Atualmente, é a minha única fonte de renda. Trabalho como profissional assalariado de um pequeno estúdio de editoração eletrônica. Depois de alguns anos revisando manuais de treinamento, passei também a elaborar testes de múltipla escolha abordando os assuntos destes manuais. Em termos de frequência, posso dizer que faço copidesque (sobretudo de traduções, que aparecem com um português excessivamente truncado), reviso, elaboro os testes e vez por outra redijo alguma coisa.

8. Que etapas você segue no seu trabalho com o texto? (Enumere-as)

Eliminação de espaços duplos e demais espaços indevidos, por exemplo, espaço antes de sinais de pontuação, utilizando o comando Localizar e substituir do Word. Conferência e padronização dos títulos e subtítulos: se estão em caixa alta, caixa alta e baixa, caixa baixa (conforme instrução). Primeira leitura do texto e parte mais pesada da revisão. Essa primeira etapa é feita com arquivo eletrônico na tela do computador. Depois de concluída, releio todo o texto, agora em versão impressa, a fim de identificar possíveis falhas minhas ou problemas ainda não vistos quando da primeira leitura.

9. Quais são as dificuldades da profissão?

O desgaste físico! A necessidade de ficar longas horas sentado diante de um computador ocasiona um grande esgotamento das vistas e uma quase atrofia dos músculos e membros do corpo. Quando não há um cuidado, dores lombares, torcicolos, problemas de postura e coisas assim são constantes. (E digo por experiência própria!).

Poderia mencionar também a dificuldade de inserção no mercado e a baixa remuneração oferecida por algumas empresas.

10. Costuma fazer algum tipo de reciclagem (cursos, palestras, etc.)? Com que frequência?

Já fiz alguns cursos, sim, mas não posso dizer que há uma regularidade nisso. Recebo a newsletter da Universidade do Livro e costumo visitar o site da Revista Língua e da CBL, que são as instituições de São Paulo que oferecem cursos na área. Sempre que posso, faço. Todos os de que participei até hoje foram pagos pela empresa em que trabalho.

11. Que bases teóricas e/ou teorias linguísticas e/ou textuais utiliza para respaldar seu trabalho?

Na esmagadora maioria dos casos, o prescritivismo gramatical mais raso. A linguística vem em socorro para justificar algum desvio que deve ser mantido, pois a adequação à dita norma culta implicaria numa significativa mudança de significado ou quando fica nítido que o autor do texto optou por uma forma e não por outra deliberadamente.

12. Defina três regras que o copidesque e o revisor devem seguir no seu trabalho.

a) Mexer o mínimo necessário no texto: o texto não é seu e você não pode mexer no trabalho alheio de modo absolutamente arbitrário. Na máxima disse que se deve mexer o mínimo necessário (e não o mínimo possível), porque existe o risco de pecarmos tanto pelo excesso quanto pela falta.

b) Não fazer alteração que não seja capaz de justificar.

c) Nos casos em que há mais de uma opção admissível, optar por seguir a forma que o autor do texto escolheu, ainda que não nos pareça a melhor escolha.

13. Quais são as características essenciais de um copidesque e/ou revisor?

Atenção, disciplina, conhecimento, sagacidade para fazer as inferências, comedimento nas intervenções, humildade para reconhecer que nem sempre a nossa fórmula é a mais adequada, mais bonita ou mais correta. E o mais importante: o revisor/copidesque deve ser um leitor de bons textos, tanto de literatura quanto de outras áreas do conhecimento, para não se deixar contaminar pelos vícios dos textos que lê e para manter sempre viva a eufonia da língua portuguesa.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Paradoxos do Cristianismo

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Depois da Santa Ceia...

video

Mel Gibson retratou com dramaticidade ímpar as últimas 12 horas da vida de Jesus. E é justamente nesse período que se concentra o que há de mais importante no Cristianismo. É nele que, segundo os cristãos, se cumpre o propósito para o qual o Verbo se fez carne. Mais importante do que todas as curas, mais importante do que andar sobre as águas, mais importante do que acalmar a tempestade, mais importante do que transformar água em vinho, mais importante, enfim, do que qualquer milagre, foi o seu sacrifício. É por isso que nos lembramos dEle ainda hoje, é por isso que ainda hoje O celebramos, é por isso que ainda hoje partimos o pão em memória dEle.

Digo isso porque é importante resgatar a centralidade da Cruz de Cristo. Jesus não foi só um grande mestre, um grande líder, uma figura admirável. Não foi só um curandeiro, um milagreiro... Tampouco foi um revolucionário, um líder político. Ele era o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Muitos viram os seus grandes feitos. Seus discípulos o acompanhavam de perto, diariamente o ouviam, testemunhavam a tudo quanto este fazia. Mas testemunhar tudo isso parece não ter sido suficiente para marcá-los com a profundidade necessária. Dos 12, um o traiu, outro o negou, e outros ainda entristeceram-se com sua morte e duvidaram de sua ressurreição.

Ainda assim, Jesus não desisitiu deles e, já ressurreto, lhes ordenou que anunciassem que ele era o Cristo. O livro de atos dos apóstolos narra o cumprimento da promessa de Jesus, o envio do Espírito Santo e o subsequente ministério apostólico. Cheios do poder de Deus, anunciavam o evangelho com ousadia. Veio a perseguição, mas eles bem sabiam em quem criam. Resistiram a tudo. Se hoje há cristianismo, devemos isso aos heróis da fé, àqueles que julgaram a mensagem do evangelho mais importante que suas próprias vidas, àqueles que mesmo nas condições mais adversas, não esmoreceram e insistiram em anunciar a boa notícia do Reino de Deus.

Hoje, olhamos o testemunho daqueles homens e nos envergonhamos da nossa omissão, da nossa tibieza, do nosso comodismo, da nossa covardia. Nesse tempo em que relembramos o sacrifício do Cristo por nós, pensemos no que temos sacrificado por ele. Digo essas coisas todas sob o impacto de um vídeo que mostra igreja perseguida do Século XX e XXI. Sim, isso ainda existe. E a crueldade não é menor; mas, ora bem, a Graça também não é menor. Vejam o vídeo, orem pela igreja perseguida, orem pelas crianças.

***

Já há tempos venho dizendo que temo pelas novas gerações. Nos últimos dias tenho aprendido que só temer e reclamar não muda nada. Importa, sim, fazer diferença. Como? Ainda não sei! Mas que suponho que tal incômodo já é o início de uma mudança em mim. Uma coisa é ser competente o bastante para criticar. Outra, bem diferente, é ser competente para fazer a coisa acontecer. O me miserum.

Kyrie eleison.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Uma saída para a religião

A refrega entre ciência e religião voltou à tona com força máxima em 2009. Culpa de Darwin, que faz aniversário neste ano. 200 anos de vida, 150 desde a publicação de “A Origem das Espécies”. Numa tentativa de discutir a relação, muitos se aventuram a propor uma reaproximação entre as duas, talvez como uma forma de reviver os áureos tempos em que a Igreja patrocinava as “heresias” científicas de seus fiéis. Cupidos destrambelhados, a conciliação parece longe de um final feliz. Mesmo assim, não faltam figuras benevolentes, tolerantes como os Santos, a propor uma solução para a peleja. Um exemplo é o físico Marcelo Gleiser, em texto para o Caderno Mais!, da Folha de São Paulo (A Ciência e as Religiões, FSP 22/02/2009). Gleiser, na melhor das boas intenções, apresenta aquilo que seria uma saída para a controvérsia.

Para ele, o problema principal está na relação dos religiosos com os textos sagrados. Escreve: “(...) Em vez do radicalismo imposto por uma interpretação liberal (certamente um erro tipográfico, mas que pode complicar a compreensão de leitores incautos) da Bíblia, as correntes mais liberais tendem a ver o texto bíblico de forma simbólica, como uma representação metafórica de acontecimentos e fatos passados com o intuito – dentre outros – de fornecer uma orientação moral para a população.” O crente ideal seria, então, aqueles que reconhecem “(...) que é absurdo insistir que a Terra tenha menos de 10 mil anos ou que Adão e Eva surgiram da terra. Para um número cada vez maior de congregações, é fútil fechar os olhos para os avanços da ciência”. Para esses “(...) a preservação dos valores religiosos, da coesão de suas congregações depende de uma modernização de suas posições de modo que possam refletir o mundo em que vivemos hoje e não aquele em que pessoas viviam há dois mil anos”. Afinal, “(...) o mundo mudou, a sociedade mudou, a religião também deve mudar”.

A boa intenção, como sabemos, é característica comum no inferno (no metafórico, claro). A argumentação de Gleiser pode ser resumida da seguinte forma: religião e ciência podem conviver em harmonia, desde que a religião deixe de ser... religião. Abandonar qualquer ambição de ser “a” verdade, abrir mão de seus dogmas, relativizar a fé (Adão e Eva? Nem pensar!), em suma, adaptar-se ao “mundo moderno”: eis a saída, segundo o físico – que, entendo, fala em nome da ciência.

Mas há na lógica racional de Gleiser uma lacuna que compromete toda sua argumentação: ora, a religião só é religião enquanto cultiva sua pretensão de verdade, quando mantém seus dogmas, quando toma a fé como a lente para a compreensão do mundo. Goste-se ou não, religião é isso. Caso contrário, qual seria a diferença entre “crer” nas lições morais das fábulas de La Fontaine e devotar-se à moral Cristã? Neste caso, não importaria se o deus é real ou metafórico. Bastaria absorver os ensinamentos que ainda se encaixam na modernidade – ou fazer as devidas adaptações –, desprezando as superstições desacreditadas pela ciência. Mas como se temporalizar aquilo que se declara o Eterno?

Percebam que nesta leitura a ciência toma para si a prerrogativa de verdade que é negada à religião. O Divino e seus fiéis ficariam submetidos à agenda científica, sempre à espera da próxima descoberta. O que hoje é praticável, amanhã pode se tornar antiquado; o que agora é tolerável tornar-se-ia anacrônico. Trata-se da morte de Deus. Não na forma descrita por Nietzsche, mas defunto por sua incapacidade de ter vida própria, autônoma. Logo Ele?!

Involuntariamente, Marcelo Gleiser manifesta a mais nefasta intolerância: aquela que se apresenta de forma condescendente, cheia de amor para dar. Em nome da harmonia, para preservar a paz, em defesa do amor mútuo, a religião faria todas as concessões, negaria a si própria e levaria sua cruz. Crucificada, morreria em favor de seu próprio algoz. Metáfora? Realidade? Não faz diferença.

Quero crer que Gleiser é um agnóstico ingênuo. Ou um ateu que ignora os fundamentos da religião. Caso contrário, eu desaconselharia qualquer médico a insinuar, perto dele, uma reza antes de realizar uma cirurgia. A tolerância de Gleiser segue a lei newtoniana segundo a qual dois corpos não podem ocupar um só lugar ao mesmo tempo.

terça-feira, 3 de março de 2009

Mais entrevista: agora com Jacques Barzun


Mais uma das grandes entrevistas de VEJA, essa foi feita em 10 de abril de 2002.

Apagão na cultura

O historiador americano diagnostica
um mal-estar na civilização ocidental,
mas acha que a sua decadência
tem remédio

Publicado há dois anos nos Estados Unidos e agora lançado no Brasil, o livro Da Alvorada à Decadência (Editora Campus) é uma daquelas obras de deixar qualquer historiador com inveja. Cobre um período de 500 anos e defende a tese de que a cultura ocidental experimenta um processo de declínio. Suas páginas transpiram uma erudição impressionante e, como se não bastasse, estão recheadas de opiniões contundentes. A complacência, certamente, não faz parte do repertório de seu autor, o americano de origem francesa Jacques Barzun. Quando lhe perguntam quanto tempo levou para escrever um livro de tanto fôlego, ele responde: "A vida toda". Barzun tem 94 anos – e conserva intacta sua lucidez. Passou a infância na Paris dos modernistas. Mudou-se para os Estados Unidos na década de 20, para estudar na Universidade Colúmbia. Como professor, foi um dos fundadores da disciplina de história cultural. Ele concedeu esta entrevista a VEJA por telefone, de sua casa em San Antonio, no Texas.

Veja – O que o leva a pensar que a cultura ocidental está em decadência?
Barzun – A palavra decadência expressa uma perda de energia. Transmite a idéia de que as chaves mestras da cultura já não têm o poder de abrir novas portas, de inspirar avanços. No lugar das possibilidades há repetição, estagnação e tédio. Há sinais de sobra de que isso está acontecendo no Ocidente. As confissões de mal-estar são contínuas, o repúdio e a deturpação das instituições são uma constante. Tomemos o Estado-Nação, por exemplo. Ele foi uma das maiores invenções de nossa era. Mas está se desfazendo em toda parte, porque a idéia de pluralismo político, sobre a qual se assentava, foi substituída pela idéia de separatismo. Mais e mais os homens querem unir-se em grupos pequenos de pensamento homogêneo, que formem unidades políticas separadas. A região dos Bálcãs, claro, é o exemplo clássico. Mas o processo pode ser observado em qualquer lugar, da Catalunha à Escócia, que há pouco instituiu um Parlamento independente do Parlamento inglês. Outro indício está na busca de tantos ocidentais por seitas e religiões que vêm do Oriente e trabalham idéias como a do nirvana ou a do "não-ser". Isso não é um sinal de entusiasmo com a nossa cultura.

Veja – E no campo das artes?
Barzun – O esgotamento é ainda mais patente. Observe a agitação frenética, os esforços desesperados para criar novidades. Os rótulos se sucedem – da "antiarte" à "arte encontrada", à "arte descartável" e assim por diante. As belas idéias surgidas na Renascença, e com as quais lidamos por 500 anos, tiveram seu prazo de validade vencido. Tome uma obra escrita no auge da Renascença, o Pantagruel, do francês Rabelais, e um livro escrito no auge do modernismo, o Ulisses, do irlandês James Joyce. Joyce tomou muitos temas e procedimentos lingüísticos emprestados de Rabelais. Ambos expõem recantos sórdidos da sociedade, ambos exploram vigorosamente a carnalidade humana. Mas, enquanto a literatura do francês nos deixa estimulados e eufóricos, a de Joyce é depressiva. Basta ler os dois livros para perceber as diferenças de ânimo entre uma cultura em sua aurora e uma cultura em desencanto.

Veja – O senhor parece ter uma opinião ambígua sobre a arte moderna. Reconhece a força de certos artistas, mas lamenta de maneira geral o espírito com que fizeram suas obras.
Barzun – Nos primórdios, o modernismo foi uma batalha para livrar o artista de padrões ancestrais de educação e liberá-lo para desenvolver uma visão individual do mundo. Mas tudo que os artistas viram foi um mundo injusto, materialista, desprezível. Desde os anos 20, pelo menos, a arte ocidental tem sido de destruição deliberada da sua própria tradição e de hostilidade contra a sociedade, de maneira geral. O trabalho de destruição das pontes com o passado acontece até mesmo onde o repertório utilizado é antigo. Veja o caso das produções teatrais. Hoje ninguém mais encena Shakespeare. Encenam falsificações que nem sequer se preocupam em entender as intenções originais do artista.

Veja – O senhor criou um rótulo para o momento presente. Diz que vivemos em "tempos demóticos". O que quer dizer com isso?
Barzun – Fiz isso em nome do bom uso das palavras. As pessoas costumam referir-se a práticas "democráticas" não apenas no campo político, mas também no das artes e do comportamento. Eu preferiria manter a palavra democracia para designar apenas um sistema político – que, diga-se de passagem, não atingimos de maneira plena em lugar nenhum. Para designar coisas relativas a modo e estilo de vida – roupas, comidas, formas de expressão –, tomei emprestada do grego uma palavra de mesma raiz, "demótico", que significa simplesmente "do povo". A primeira moda demótica surgiu logo depois da Revolução Francesa, quando os calções da aristocracia foram abandonados em favor da calça do trabalhador. Hoje, não é preciso dizer, a calça jeans de vaqueiro tornou-se universal – com suas variantes desbotadas, rasgadas e mal-ajambradas. Mas a vestimenta é apenas o sinal mais óbvio do estilo demótico, que está em seu auge e é marcado pela displicência e pela crença de que nada deve interferir na realização de todo e qualquer desejo.

Veja – Nas últimas décadas, vários países que viviam sob regimes ditatoriais entraram em processo de democratização. Bens circulam pelo globo e a medicina ajuda a salvar vidas em países pobres. Esses eventos são regidos por idéias e técnicas surgidas no Ocidente. Não seriam um sinal de que a cultura ocidental ainda tem algo a oferecer?
Barzun – É como eu disse no começo da entrevista: o termo decadência expressa uma perda de energia, não um estado de ruína total. Ainda há idéias ocidentais capazes de inspirar e servir de guia para países jovens. E não há dúvida de que a ciência e a tecnologia do Ocidente continuarão a produzir avanços e benesses. É uma ressalva, aliás, que faço em meu livro: a ciência não passa pelo processo de declínio observado em outras áreas. Mas isso não invalida o diagnóstico geral. Digamos que o estado da alma ocidental não é feliz. Não encontramos ninguém dizendo a frase de Erasmo no começo da Renascença, e que os franceses repetiram depois da Revolução de 1789: "Que tempo maravilhoso para se viver!".

Veja – Supondo que o senhor esteja certo, o que vem depois da decadência?
Barzun – Ninguém sabe – e esse é o fato positivo. Meu livro procura descrever um estado presente, e não fazer profecias. Certos germes sempre podem se desenvolver numa cultura e causar uma fermentação que a leve a caminhos imprevistos. Foi o que aconteceu no fim do século XV, quando a descoberta do Novo Mundo balançou a Europa e abriu possibilidades antes inimagináveis.

Veja – Existe alguma época em que o senhor gostaria de ter vivido?
Barzun – No século XIX, a partir de 1830. Foi um tempo de grande inventividade em toda a Europa. A era se autonomeou Era do Progresso, e com razão. Foi um tempo de luta contra os resquícios da monarquia e do velho sistema de classes. Havia um sentimento de conquista, energia e desenvolvimento no ar. O ambiente mais adequado ao espírito humano.

Veja – Sua vida atravessa o século XX quase inteiro. Sua vivência pessoal influiu de alguma forma em sua visão de historiador?
Barzun – Sim, é claro. Eu nasci e passei os primeiros anos de vida na França, onde meu pai e minha mãe eram amigos e colaboradores da nova geração de artistas que surgia. Os pintores cubistas freqüentavam nossa casa, assim como muitos escritores, do romancista André Gide ao poeta Apollinaire, sobre cujos joelhos eu aprendi a ler as horas num relógio. Eu compartilhei da atmosfera de alegria e excitação criativa que envolvia essas pessoas. Olhando em retrospecto, sinto-me uma testemunha e digo como historiador que aquele foi um dos grandes períodos criativos de nossa cultura. Então veio a I Guerra Mundial, que estilhaçou de maneira brutal a idéia que todos fazíamos do que fosse a civilização. Quando entrei na adolescência, depois de atravessar quatro anos de conflitos, tinha desenvolvido um quadro de depressão profunda que me levou a tentar o suicídio. Esse fato, aliado à dizimação dos quadros de professores universitários da França e da Inglaterra, foi a causa de minha mudança para os Estados Unidos, onde completei os estudos. Minha sensação de viver num mundo em declínio não é recente, portanto. Nos anos 50, cheguei a ter a impressão de que nos encaminhávamos para uma reviravolta positiva, mas foi um engano de minha parte. Esse intervalo não durou quase nada. A trajetória descendente se acentuou no fim dos anos 60.

Veja – Esse período de decadência descrito pelo senhor coincide com a expansão da influência da cultura americana pelo globo. Como cidadão de duas culturas, a francesa e a americana, o senhor deplora o que se convencionou chamar de americanização da cultura?
Barzun – Acho tolice culpar os Estados Unidos. Diria, antes, que o país está na vanguarda de seu tempo. Se esse tempo é de decadência, os efeitos se sentem primeiro aqui. Não há nada que obrigue países de sólida tradição cultural, como a França ou a Inglaterra, a imitar modas criadas pelos americanos. Mas eles o fazem, o que mostra que certas correntes de comportamento são inerentes à nossa época. Onde está escrito, por exemplo, que é imperativo "democratizar" a educação ao estilo dos Estados Unidos? No sentido que a palavra assumiu, ela não significa tornar a educação acessível a todos, mas simplesmente baixar sua qualidade, de modo a tornar possível que todo mundo deslize pelos anos de escola sem esforço. Vejo por isso com muito ceticismo e ironia certos discursos feitos na França, por exemplo, que falam em proteger a língua e a cultura nacionais. O que as últimas décadas fizeram à língua francesa realmente me deixa um pouco irritado. Palavras inglesas são adotadas de maneira indiscriminada, às vezes mesmo na presença de equivalentes perfeitamente utilizáveis. Essa adoção ignorante, sem nenhuma forma de filtragem e adaptação, é uma força destrutiva da cultura. Só que agora me parece um pouco tarde para reclamar.

Veja – A América Latina praticamente não é citada em seu livro. Não há contribuições do subcontinente à cultura ocidental?
Barzun – As sociedades latino-americanas são extensões da civilização européia. Politicamente, não contribuíram com nenhuma idéia original para o Ocidente. No campo das artes, é possível destacar nomes e movimentos importantes – mas não a ponto de ter mudado os rumos da cultura. O argentino Jorge Luis Borges, por exemplo, é um escritor que admiro imensamente. Mas não o cito de maneira específica no livro, porque se trata de uma estrela em uma vasta constelação. Em outras palavras, ele pertence ao universo da arte modernista tardia que discuto no livro. Citei outros nomes, de igual peso, em vez do dele.

Veja – Seu livro traz várias pequenas biografias de personagens da cultura ocidental. Algumas escolhas são óbvias, como as de Martinho Lutero e René Descartes. Outras podem ser consideradas excêntricas, como a da escritora de romances policiais Dorothy Sayers. Quais critérios o guiaram na escolha de nomes?
Barzun – Ao mencionar Dorothy Sayers, Walter Bagehot ou James Agate, para ficar apenas em alguns ingleses, não estou apenas dando espaço a preferências pessoais. Estou tentando indicar nomes cuja influência ainda não foi devidamente reconhecida. Bagehot, por exemplo, foi um dos pensadores mais originais do século XIX. Dirigiu a revista inglesa The Economist por dezessete anos e deixou doze volumes de comentários extremamente lúcidos sobre a política e a economia de seu tempo. Agate ajudou a formar o gosto artístico de seus compatriotas no começo do século XX – além de ter sido autor de um diário que ocupa nove tomos, cobre um período de quinze anos e é um retrato sem igual da Inglaterra do seu tempo. Sayers, finalmente, é uma das grandes teóricas dessa importante forma de ficção popular, o romance policial. É também uma pensadora original no campo da religião. As pessoas deveriam conhecer esses nomes, e algo sobre o que disseram.

Veja – Em contraste, o senhor dedica muito pouco espaço a figuras consideradas fundamentais: Darwin, Marx e Freud. Por quê?
Barzun – Creio que, ao fazer isso, estou em sintonia com o estado atual da reputação dessas pessoas. Em todo o mundo, o pensamento marxista está em refluxo. Marx sofreu uma perda enorme de influência como teórico político. Alguns de seus textos filosóficos ainda são valorizados – mas sobretudo aqueles escritos na juventude, antes de O Capital. A retração na influência de Freud também é visível. Seu legado está sob ataque e nem de longe se fala tanto nele quanto na primeira metade do século XX. O caso de Darwin talvez seja o mais polêmico. Creio, no entanto, que a importância dada a ele está em descompasso com suas conquistas reais. A idéia da evolução das espécies já circulava 100 anos antes dele. O que Darwin fez foi propor um mecanismo para a evolução, a célebre idéia da seleção natural. Ora, se esse mecanismo realmente funciona como ele descreveu, é algo que os biólogos discutem acaloradamente hoje em dia. Anos atrás, um biólogo do Instituto Pasteur, na França, me disse que ninguém mais lá dentro aceitava ser chamado de darwinista. Não quero dizer com isso que devemos retornar ao criacionismo, à idéia de que as espécies foram criadas por Deus da forma como são hoje. Quero dizer apenas que o desenvolvimento da ciência tem postona como ele descreveu, é algo que os biólogos discutem acaloradamente hoje em dia. Anos atrás, um biólogo do Instituto Pasteur, na França, me disse que ninguém mais lá dentro aceitava ser chamado de darwinista. Não quero dizer com isso que devemos retornar ao criacionismo, à idéia de que as espécies foram criadas por Deus da forma como são hoje. Quero dizer apenas que o desenvolvimento da ciência tem posto em questão vários postulados da cartilha darwinista, algo que passa despercebido por quem não está enfronhado nas discussões.

Veja – Se tivesse de escolher dois nomes representativos dos períodos de auge e declínio da civilização ocidental, quais seriam eles?
Barzun – No que se refere ao auge, eu hesitaria entre Shakespeare e Montaigne. Poderíamos dizer que ambos inventaram o indivíduo, por oposição ao tipo social. Hoje em dia, não somos apenas cidadãos ou trabalhadores, mas também indivíduos aos nossos próprios olhos, graças a esses dois escritores. Um deles é poeta e dramaturgo inglês, o outro prosador analítico francês: ambos inventaram modos de expressar a personalidade. O nascimento do indivíduo e do individualismo foi fundamental, porque encorajou a invenção nas artes, fomentou a diversidade e a diferença. Além disso, foi germe para que, na política, surgissem idéias como a de direitos humanos. No outro extremo, o do declínio, eu indicaria Pablo Picasso e Marcel Duchamp – cuja família, por sinal, era muito próxima da minha. A despeito da grandeza de ambos, eles formam um incomparável par de destruidores. Em Duchamp, sobretudo, é possível ver a imaginação trabalhando deliberadamente em favor da quebra, da paródia inclemente. Duchamp é um nome paradigmático. Está na origem da escola que impera atualmente, quando não existe diferença entre uma obra de arte e o produto que você encontra no armazém da esquina.

Veja – O que o futuro reserva aos clássicos?
Barzun – Os clássicos parecem estar afundando rapidamente no esquecimento. Mas isso já aconteceu antes. A Renascença trouxe de volta obras da Antiguidade que estavam completamente perdidas. Não há motivo para um pessimismo terminal. É preciso persistir no ensino dos clássicos. Não é fácil, já que uma quantidade básica de informação histórica se faz necessária, para que as obras não sejam vistas fora da perspectiva adequada e completamente distorcidas. Mas os benefícios são óbvios. Ler os clássicos é um maravilhoso exercício de raciocínio e imaginação.