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Ilustração do camponês Sérgio de Souza. |
Milledgeville
Sábado
Prezada Louise,
Considero que não há sofrimento maior do que aquele causado pelas dúvidas dos que desejam crer. Sei que tormento é este, mas, seja como for, só o posso ver em mim mesma como o processo pelo qual a fé se aprofunda. Uma fé que só aceita é uma fé pueril e é adequada para uma criança, mas, como o tempo, cresces religiosamente, assim como nos demais aspectos – ainda que alguns jamais o façam.
O que as pessoas não percebem é o custo da religião. Pensam que a fé é um grande cobertor elétrico, quando obviamente ela é a cruz. É muito mais difícil crer do que não crer. Se sentes que não podes crer, deves ao menos fazer o seguinte: mantém a mente aberta. Mantém-na aberta na direção da fé, continua desejando-a, continua a buscá-la, e deixa o resto para Deus.
A confissão considerada corretamente não é um ato realizado a fim de atrair a atenção de Deus ou de conseguir um crédito para si mesmo. É algo natural que se segue ao arrependimento. Estivesse eu em teu lugar, esqueceria a confissão até que me sentisse chamada a fazê-la. Não te precipites demais. Tenho a sensação de que irritas tua alma com muitas coisas com que ainda não é tempo de irritá-la.
Minha leitura do artigo do padre sobre o inferno foi que o inferno é aquilo em que o amor de Deus se torna para aqueles que o rejeitam. Ora, ninguém tem de rejeitá-lo. Deus nos fez para amá-Lo. É necessário que haja dois para que haja amor. É necessário que haja liberdade. É necessário que haja o direito de rejeitar. Se não houvesse inferno, seríamos como os animais. Sem inferno, sem dignidade. E lembra-te da graça de Deus. É fácil declará-la como uma fórmula e difícil crer nela, mas tenta crer no oposto e acharás bem fácil. A vida não tem sentido dessa forma.
Carta de Flannery O'Connor para Louise Abbot. In: Flannery O'Connor, Collected Works. New York: The Library of America, 1988, p. 1110.
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