segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Antes e depois de Obama


Me senti ludibriado. Por volta das 7 da manhã da última quarta-feira, acordei com uma efusiva mensagem vinda da TV: o mundo não era mais o mesmo. Até esbocei uma certa indiferença, mas como a manhã é sempre traiçoeira para aqueles que dominam a arte de dormir, resolvi prestar mais atenção àquela coisa. E o repórter insistia: era mesmo o fim de nossas dores. E a cura do mundo vinha de um lugar improvável, acusado de sempre contribuir para a infecção de nossas chagas. E, para espanto generalizado, o remédio era produto da vontade de uma gente reconhecidamente arrogante que, agora, presenteava o mundo com esta boa nova. Sim, “They Can”.

A verdade, contudo, é que apesar das promessas de tempos áureos e novas felicidades, me parece que a vida continua seguidora de sua lógica pouco ortodoxa: tão imprevisível e insuportável (para a maioria) quanto ontem. O trânsito, pelo que vejo, mantém-se apocalíptico; minhas contas chegaram com a pontualidade britânica de sempre; o céu está cinza; os livros continuam caros. Em suma: a vida continua rigorosamente a mesma. A idéia de dividir nosso século em AO/DO (Antes de Obama, Depois de Obama), me parece precipitada e insalubre.

Precipitada porque não se sabe o que é Obama. Apesar dos sonhos vendidos, a chamada vida real é mais complexa do que os discursos apaixonados e apaixonantes proferidos durante a campanha. Insalubre porque exige dispensar à política algo que ela não merece: fé. E quando digo “fé” refiro-me justamente àquela descrição bíblica: a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem. E a razão de minha preferência ao ceticismo é muito simples: a política é, em si, insuficiente. Ela é incapaz de abarcar os vícios que produzimos diariamente, de satisfazer nossas paixões íntimas. Por isso, a felicidade nunca – exagero? – é um produto (unicamente) da política.

Obviamente isso não significa que devemos repudiar a política, suas causas e resultados; não significa tampouco deixar de vigiar, fazer escolhas, exigir melhorias e, no extremo, acreditar em “um novo mundo”. Nada disso. Trata-se apenas de colocá-la em seu devido lugar, saber até onde ela pode nos levar, conhecer seus limites. Caso contrário, a ascensão de Obama – ou de qualquer outro candidato a santo - terá o efeito de um livro de auto-ajuda: um alívio momentâneo que se dissolve diante da dureza da realidade.

3 comentários:

William Campos da Cruz disse...

Caraca, o texto ficou tão bom, mas tão bom, que quase perguntei por que não citou a fonte!!!

Rita disse...

Gostei muito, William!
Guardadas as devidas proporções, esse sonho foi vendido a nós, por aqui, quando um operário chegou à Presidência. É o poder da mídia colaborando!

Deixemos o tempo passar para vermos o que ele é?! O Obama, claro!

Parabéns!
Beijo!

Junior disse...

Nossa, muito bom!!!

Um forte abraço.