segunda-feira, 2 de junho de 2008

A monstruosidade dos quietos


Já perceberam que os serial killers, atiradores juvenis, psicopatas de todos os tipos são sempre retratados como figuras reclusas, tímidas, com dificuldades de relacionamento? Parece existir uma relação direta entre a quietude e a monstruosidade. Os quietos são vistos como seres na eminência de uma explosão; seus silêncios nunca são traços corriqueiros, entre tantos outros, da personalidade do indivíduo; são, antes de tudo, uma presunção de culpa. Ninguém é apenas quieto: o caladão é um sujeito problemático, com segredos insondáveis, mistérios íntimos bem guardados. Como se a “normalidade” fosse a espontaneidade, a eloqüência, a simpatia incondicional.

Confesso que um certo alívio me percorreu quando soube que nosso mais recente monstro, o austríaco Josef Fritzl (que admitiu ter abusado sexualmente da filha Elisabeth durante os 24 anos em que a manteve dentro de um porão), mantinha uma vida social bastante “intensa”. Foram noticiadas com alarde as fotos do sujeito em férias na praia, de sunga, degustando boa comida e fazendo graça para a câmera. Por que o espanto? Será a monstruosidade incompassível com a sunga, com a praia, com a graça para a câmera? Apenas os tímidos, reclusos e antipáticos de todos os gêneros seriam impelidos à bestialidade? Parece que Fritzl, que não duvido ser o melhor amigo de uma centena de pessoas, desenvolveu uma função que não era sua. Não demorará e o sindicato dos psicopatas exigirá retratação.

O que esse post quer denunciar é justamente essa coisa da simpatia como objeto de inimputabilidade. Num texto anterior falei sobre um mundo em que as pessoas evitam, a todo custo, o constrangimento. Ou melhor, evitam - inutilmente - demonstrar os efeitos do constrangimento. Acho que esse caso é ainda mais grave. Afinal, são muitos os problemas da modernidade: a perda dos valores, a violência, as drogas. Mas nada disso chega perto do maior de nossos males: a exigência por simpatia plena, pelo “Bom dia” afetado, o obrigatório beijinho - de bochecha - no rosto, o bom humor diante de qualquer circunstância. Oscar Wilde disse que aquele que gosta de todo mundo é indiferente a todos. Nada mais verdadeiro. A simpatia em tempo integral é uma falsificação, um claro sinal de indiferença ante a vida.
Imagine a beleza de um mundo em que as pessoas serão livres para ser antipáticas quando lhes der na veneta. Sem culpa. E, pode parecer exagerado, mas acredito ser esse um dos traços que distingue a civilização à barbárie.

Mas, por falar nisso, alguém quer ser meu amigo?

2 comentários:

Junior disse...

É verdade...que mundo é esse??
Olha só esse caso que temos ai, um Tenete da policia militar, que era o comandante da Força Tática responsável pela varredura na área no caso Isabella,nos mostrou que temos que rever os nossos conceitos, pois ele fazia parte da nossa segurança, tinha uma postura muito séria, e repercutiu de forma espantosa por alguns de seu companheiros que alegaram que ele era um bom profissional. Nós convivemos entre pessoas de diversos niveis, cabe a nós escolhermos em quem acreditar e em qual sociedade participar eu estou bem cético quanto a tudo e a todos, não sei mais em qual mentira devo acreditar...

Leandro Munis disse...

"A simpatia em tempo integral é uma falsificação, um claro sinal de indiferença ante a vida."

Você está errado!

A maioria de nós se resume à "apego" e "aversão", uma vez que esses sentimentos são retirados não existe falsidade quando se trata de comportamento sadio. Muito diferente de "indiferença" como você sugeriu no texto.

Indiferença é não "ligar pra nada". Mas quando a pessoa consegue sentir, mas se distancia do sentimento e não se apega a ele, identificando a causa que é puramente causada pelo pensamento ignorante.

De qualquer forma, bom tópico.
Só espero que não tenha quebrado alguma regra da "sua casa".

http://28onze82.blogspot.com/